A semana em que filhos ganharam pais

Mutirão feito domingo passado em 300 cidades de SP levou à abertura de 5,6 mil processos de paternidade

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 00h00

O dia é dos pais mas quem ganhou presente nesta semana foram os filhos. E ganharam justamente um pai. Um dos casos mais curiosos é o do comerciário José Carlos Ribeiro, de 44 anos, de Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo. Filho de um relacionamento extraconjugal, ele conviveu com o pai, mas nunca teve o nome dele no RG. Pois, domingo passado, o mecânico aposentado João Serpa do Nascimento, de 80 anos, resolveu reconhecer Ribeiro no registro."Fiz questão de fazer isso. Nunca é tarde, né?", diz o mecânico. "Na verdade, acho que é mais importante mesmo é para ele", desconversa o comerciário, admitindo, porém, que ter a expressão "pai desconhecido" na certidão provocava alguns constrangimentos em entrevistas de emprego, por exemplo.Pelo menos 350 mil crianças em todo o Estado de São Paulo, segundo a Secretaria da Educação, não foram reconhecidas oficialmente pelo pai. Muitos até sabem quem ele é, mas a burocracia e o desconhecimento impedem que se oficialize a paternidade. Ribeiro e o pai conseguiram furar esse bloqueio graças ao trabalho de uma multidão voluntária de juízes, funcionários de cartório, professores e advogados, que, domingo passado, fizeram o Mutirão da Paternidade Responsável. Das 76.759 mães convocadas, 5.676 (7,3%) reconhecimentos espontâneos foram obtidos no mesmo dia (leia texto acima)."A maioria não tem pai identificado por ignorância da lei e trabalhar por isso muda a visão que a população mais carente tem da Justiça, tornando-a mais acessível, mais próxima, mais relevante para o cotidiano dessas pessoas", afirma o desembargador Celso Luiz Limongi, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo.A maior autoridade judiciária do Estado trabalhou como voluntário em uma escola de Tupã, no interior. Traz os números do mutirão, naquele lugar, na ponta da língua: "Das 84 audiências, foram realizadas 67 conciliações. É excelente."Reconhecer os filhos menores foi o segundo contato com a Justiça do auxiliar de expedição Cláudio Câmara da Rocha, de 43, de Itaquera, zona leste. O primeiro se deu quando ele foi condenado por tráfico. "Eu era cabeça de bagre, moleque, e acabei enveredando pelo mundo do crime." Durante a pena de três anos, cumprida em Pirajuí (interior de SP), a mulher ficou grávida de Marcela Aline, de 9, e Alex Cláudio, de 6."Vou para 24 anos de casamento. No final, tudo isso uniu a nossa família", diz Rocha. Livre, ele cedeu ao apelo da filha, que não entendia a razão de não ter o sobrenome do pai. "Essa criançada é rápida."BALANÇOSegundo a juíza Ana Luiza Villa Nova, de 45, criadora do mutirão, os resultados preliminares foram promissores. "Ano passado, foi um piloto. Dessa vez, atingimos o objetivo estabelecido pelo corregedor Gilberto de Freitas em tornar a Justiça mais célere." Das 76.759 mães convocadas por professores e diretores da rede de ensino, 36.592 compareceram. Dessas, 16.362 puderam indicar um suposto pai. Foram atendidos 11.390 casos, sendo que, em 3.646, o pai deverá ser convocado na cidade onde mora.Exatos 8.794 pais aceitaram a proposta de reconhecimento, mas 3.118 preferiram pedir exame de DNA. Alguns dos que não puderam ganhar um pai, pois a mãe não sabe onde ele mora ou quem ele seja, ganharam um padrasto. Foram encaminhados 775 casos para adoção.

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