''A sociedade não vê quando a vítima é criança''

Segundo a executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância, há uma certa conivência com a exploração sexual

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2008 | 00h00

Todos os dias são feitas pelo menos cinco denúncias de exploração sexual no Brasil, segundo dados compilados pelo Unicef, a partir do serviço Disque 100, da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Dos 80 mil telefonemas sobre violência sexual, desde 2003, 9.600 tratavam do uso de crianças para fins comerciais.Pela primeira vez no Brasil, a diretora-executiva do Unicef, Ann Veneman, defendeu maior mobilização da população e alerta para a condescendência da sociedade em torno da exploração sexual de crianças. Ann participa do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.Atualmente, as redes de exploração sexual se valem de novas tecnologias, como internet, MSN, telefones celulares com acesso a salas de bate-papo virtual. Isso dificulta o combate a essas redes?A questão da exploração sexual envolve a internet, que realmente é um problema, por conta das imagens difundidas na rede, telefones, televisões. E também envolve vários locais onde as pessoas são levadas por traficantes de um país para o outro para fins de exploração sexual. E há o casamento precoce, crianças que são levadas pelos pais para se casarem, às vezes com 9 anos. Tudo isso cria vários formatos de exploração sexual. Sobre a internet, é uma área em que há um número crescente de ferramentas que permitem que a pornografia circule. Isso quer dizer que as novas tecnologias convivem com formas tradicionais de exploração, como crianças em serviços domésticos?Essa é uma questão importante. Há crianças contratadas para trabalhar que sofrem abusos. Em países como Haiti, Libéria e Brasil, há pessoas que deixam seus filhos com outras famílias, mas muitas vezes essas crianças não têm oportunidade de estudar, acabam fazendo trabalho doméstico. A sociedade é conivente com a exploração sexual?De alguma forma, é verdade. Há condescendência. A sociedade permite que isso aconteça porque vira o rosto para o outro lado. Simplesmente não vê, mesmo quando as vítimas são crianças. Qual a sua análise sobre a atuação do governo brasileiro no enfrentamento da exploração sexual?Anteontem, o presidente Lula demonstrou posição firme sobre o assunto, uma lei foi sancionada. Como disse, não é questão de posição governamental, mas do envolvimento das empresas que lidam com imagens que estão disponíveis para o acesso das crianças. Cria-se uma cultura de condescendência com a pornografia. Essa questão tem de ser atacada pela sociedade, não somente pelo governo. A impunidade incentiva esse crime.

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