GABRIELA BILO/ESTADÃO
GABRIELA BILO/ESTADÃO

‘A sociedade naturaliza a cultura do estupro’

Para estudiosa de gênero, produção cultural torna comum ideia de que ‘homem não consegue se conter’

Entrevista com

Heloisa Buarque de Almeida, professora de Antropologia da USP

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2016 | 08h25

O estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro levantou uma questão: vivemos uma cultura do estupro? Para responder, o Estado entrevistou a professora de Antropologia da USP Heloisa Buarque de Almeida, que coordenou o programa USP Diversidade quando vieram a público os casos de estupro na Faculdade de Medicina. Hoje ela participa da rede Não Cala.

Nós vivemos numa cultura de estupro? O que isso significa?

Para entender o que isso tem a ver com o Brasil, é preciso pensar no tipo de produção cultural que a gente tem, que por um lado naturaliza a desigualdade entre homens e mulheres e por outro torna as mulheres objetos e traz a ideia de que o homem não consegue se conter. Como se o homem fosse uma espécie de bicho descontrolado. O que não é verdade porque, se fosse assim, todos os homens seriam predadores sexuais. Um caso clássico é o de uma propaganda de cerveja do carnaval do ano passado que dizia “deixei o não em casa”, sugerindo que a mulher diz ‘não’, mas no fundo quer dizer ‘sim’. As pesquisas com violência contra as mulheres mostram que o estupro é muito mais comum do que a gente imagina, acontece de modo muito mais corriqueiro. Estudo recente do Ipea calculou que 10% a no máximo 30% dos casos são de fato denunciados. Isso porque vivemos numa sociedade que nutre a ideia que se uma menina denuncia um estupro, a primeira coisa que acontece é cair a culpa sobre ela. Sabe que vão perguntar: mas você estava bêbada ou de minissaia? Isso é naturalizado em várias produções culturais. Temos músicas que descrevem cenas que parecem estupros e tocam como se isso fosse normal. Em novela tem cena assim: um caso de um namorado desesperado que sequestrou a namorada. E a história mostrou como se ele fosse bonzinho e a namorada era má. Isso está errado. Mesmo que a menina fosse muito levada, muito malvada, ela não pode ser sequestrada. O amor não é uma imposição. A gente tem uma sociedade que naturaliza a ideia de que o homem pode ser violento em certas circunstâncias, que o homem não pode se conter. E isso é uma espécie de cultura de estupro. E que desvaloriza as mulheres pelo seu comportamento sexual. São julgadas pelo que faziam antes do que aconteceu.

O caso do Rio é uma exceção?

Essa história é muito brutal, mas tem elementos em comum com outros estupros no Brasil. A maior parte dos casos acontece entre pessoas que se conhecem. Ex-namorado, namorado, amigo, colega, parente, vizinho são na maior parte os agressores das mulheres. Claro que tem também o estupro da rua escura, quando a mulher está andando e um desconhecido a ataca. O espaço público ainda é perigoso para as mulheres no Brasil. Eu gostaria de andar muito mais à noite, mas não ando porque tenho medo e não só de assalto. Mas as meninas jovens dessa idade são mais vítimas, é mais comum que isso aconteça com elas. E costuma ser entre pessoas que se conhecem. O fato de ela estar dopada só fica ainda mais grave. E os criminosos se sentem protegidos para divulgar na internet. Esse caso do Rio é excepcional pela sua brutalidade, mas a violência sexual é corriqueira no Brasil. E isso é terrível.

Muita gente tem dito: em vez de ensinar a menina a não ser estuprada, tem de ensinar os meninos a não estuprar. É só uma questão de educação?

Precisa de várias coisas para melhorar. Neste caso, a primeira coisa que tem de acontecer é punir os agressores. E hoje pune-se muito pouco esse tipo de caso. Muitos dos BOs que fizemos de casos na Universidade de São Paulo nem sequer foram investigados. Mas além disso, não basta punir, para mudar, é preciso ter um papel de tranformação. E educação é fundamental. É urgente falar de gênero na escola. Quando um menino pequeno está na escola, chora, e o pai fala: “homem não chora, bata no menino que bateu em você”, ele aprende que não pode expressar seu sentimento a não ser através da agressão. É ainda dominante uma cultura que os meninos têm de saber se defender, dar porrada. A gente ensina a se expressar pela violência. Tem de mudar isso. Educar os meninos a ser amigos das meninas é fundamental. Não pode continuar vendo a menina como um inimigo, como objeto a ser domado. Falar de gênero não é só falar da violência contra a mulher. O Brasil também é muito brutal contra as pessoas LGBT. É preciso tratar disso na escola porque é preciso ensinar as crianças a respeitarem os outros, sejam como eles forem. A violência é muito naturalizada, por isso é preciso discutir na escola, na televisão. Assim como é preciso discutir o racismo. Não é à toa que as mulheres negras são mais vítimas de violência sexual no Brasil e isso tem a ver com uma história de desigualdade. Tem a ver com olhar para a mulher mulata como hipersexualizada, como alguém disponível para ser abusada.  

E isso aparece também no discurso de artistas, políticos.

É assustador que esse caso venha à tona num dia em que vemos o Alexandre Frota, que contou como piada na TV uma cena de estupro de uma mãe de santo, indo ao Ministério da Educação discutir educação. O que ele fez na TV foi um exemplo clássico de cultura do estupro. Ele ensinou na TV como se estuprar alguém. O que ele pode propor sobre educação? Outro exemplo de cultura de estupro foi quando o deputado Jair Bolsonaro falou para a deputada Maria do Rosário que ela não merecia ser estuprada. Como se estupro fosse um elogio. Ele naturalizou o estupro como se fosse algo que as mulheres merecessem. Por isso é urgente a gente problematizar a violência contra a mulher. O Brasil é um dos países que mais assassina mulheres. Por isso a gente tem leis específicas sobre isso, como a Lei Maria da Penha, a do feminicídio.

Isso tudo não contrasta com o fato de que a nossa sociedade sexualiza a mulher?

As pessoas vão usar o argumento de que a mulher estava de minissaia, ou rebola, ou saiu daquele jeito para namorar. Mas a ideia de direitos individuais, sexuais e reprodutivos, a própria ideia dos direitos humanos, do direito das mulheres é que elas têm o mesmo direito dos homens. De que se a menina quer sair para fazer farra, ela pode. O que a gente tem a ver com isso. E ela não pode ser julgada como valendo menos do que um homem por causa disso. Isso é um ponto. Outro ponto é que a gente vive numa sociedade que valoriza muito e promove na mídia que as pessoas se vistam de determinada maneira, que elas sejam sensuais, sexy. O que faz a mulata globeleza no Carnaval senão hipersexualizar mais ainda o corpo das mulheres negras, por exemplo? Temos uma cultura visual que apela e que promove que as mulheres têm de ser sensuais. Mas ao mesmo, olha o paradoxo, a sociedade culpabiliza essa mulher se ela sofrer algum tipo de violência porque ela comportou daquele mesmo jeito que a sociedade promove que ela se comporte. O movimento feminista, a Marcha das Vadias, por exemplo, vem defendendo que não importa a roupa que eu estou usando, eu não quero sofrer violência. Aí está imbuída a ideia de que a sexualidade é uma escolha, não é uma obrigação. Isso vem desde a década de 70, quando a Leila Diniz recusou um coronel do Exército que vivia assediando ela. Ele dizia: “Mas você dá para todo mundo, por que não transa comigo?”. E ela respondeu: “Eu dou pra todo mundo, mas não dou pra qualquer um”. A ideia dos direitos sexuais é que o sexo é uma prática prazerosa e uma escolha dos parceiros, não é obrigatório.

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