A solidariedade que chega por carta

Projeto aproxima voluntários e crianças de abrigos, que aproveitam o fim de ano para trocar sonhos e presentes

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

21 de dezembro de 2007 | 00h00

Como toda criança, Renata dos Santos Silva, de 7 anos, espera ansiosa pelo Natal. Mas, além dos brinquedos e roupas que deverá receber, Renata também aguarda com expectativa para saber o que Andréia, de 30 anos, achou do presente que fez para ela. Andréia, voluntária, e Renata, uma das crianças atendidas pelo núcleo socioeducativo Casa da Criança e do Adolescente, da ONG Cáritas, trocam cartas há um ano, por meio do projeto Correspondentes. Ao contrário das tradicionais sacolinhas, em que os doadores sequer conhecem os beneficiados, o Natal para aqueles que usualmente se correspondem é um momento de troca de cartões, presentes, palavras de carinho entre pessoas que, apesar da distância, sentem-se muito próximas. Através do papel, voluntários e crianças passam a conhecer a história um do outro, trocam informações sobre os mais diversos assuntos, descobrem interesses em comum e criam vínculos.Andréia e Renata nunca se encontraram, mas conhecem o gosto uma da outra, como se fossem amigas antigas. Como presente de Natal, Renata fez para Andréia uma capa de CD com desenho de próprio punho, inspirado em Romero Britto, o artista plástico brasileiro que a menina estudou durante o ano nas aulas de arte de sexta-feira, organizadas pelo núcleo socioeducativo. "Desenhei um coração bem vermelho porque gosto muito dela", diz a menina. Tímida, ela encontrou nas cartas uma nova forma de se comunicar. No papel, solta o verbo e pergunta muito. "Eu sei que a Andréia tem 30 anos e quando faz aniversário. E ela sabe que o meu é em julho. Ela não é casada e gosta de música." O CD enviado dentro da capa feita por Renata foi doado à instituição por uma empresa. Mesmo antes de receber o presente, mas já sabendo, através das cartas, que a menina gosta de desenhar, Andréia enviou-lhe de presente de Natal um kit de artes, com canetinhas, lápis de cor e dois livros de pintar.No total, a Casa da Criança atende 63 meninos e meninas de 6 a 14 anos, nos horários em que não estão na escola. "Começamos a participar do projeto Correspondentes quando percebemos a dificuldade das crianças em ler e escrever. Tenho alunos de 12, 13 anos que mal escrevem o nome", diz a pedagoga Zilma Oliveira Silva, diretora do núcleo. "Além da escrita e leitura, as cartas ajudam as crianças a se expressarem e estimulam a criatividade. Ao contar suas histórias, elas também refletem sobre a própria vida, uma experiência rica.""Em troca, recebem a atenção individualizada dos correspondentes", diz Alzira Conceição Toledo de Olival Gomes, coordenadora pedagógica de um abrigo em Santana que atende a 60 crianças.AUTO-ESTIMAJoão (nome fictício), de 8 anos, está aprendendo a ler e a escrever, mas já troca cartas com Fabiana há seis meses. Quando não consegue reconhecer palavras, técnicos do abrigo o ajudam. Hoje, quase não precisa. "Depois que ele começou a se corresponder, a leitura e escrita melhoraram e também a sua auto-estima", diz Alzira. Na última carta, uma surpresa: Fabiana ficou tão orgulhosa com os avanços do menino no português que enviou o livro infantil Onde Acaba o Arco-Íris. João leu tantas vezes que já decorou a história. Em troca, vai mandar para Fabiana um cartão de Natal desenhado por ele. "Fiz uma árvore." O projeto Correspondentes é coordenado pelo Instituto de Projetos Sociais (http://www.inpros.org.br).

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