Eraldo Peres/AP
Eraldo Peres/AP

'A vacina é do Brasil, não é de nenhum governador', diz Bolsonaro sobre Doria

Início da vacinação em São Paulo é visto como derrota política para o presidente

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 11h44
Atualizado 22 de janeiro de 2021 | 00h54

BRASÍLIA - Um dia após o governador de São Paulo, João Doria, sair na frente e iniciar a vacinação contra covid-19 no Estado, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a "vacina é do Brasil", em referência à Coronavac, imunizante produzido pelo Instituto Butantã em parceria com a chinesa Sinovac. "Não é de nenhum governador não", afirmou o presidente em conversa com apoiadores ao deixar o Palácio da Alvorada na manhã desta segunda-feira, 18. Ao longo da pandemia, Bolsonaro questionou a origem da vacina, colocou em dúvida a segurança do imunizante e chegou a comemorar a interrupção dos testes da Coronavac nas redes sociais. Mais cedo, o Ministério da Saúde autorizou o início da imunização no restante do País a partir de hoje e iniciou o envio das doses aos demais Estados.

"Pessoal, uma notícia. Apesar da vacina...apesar não. A Anvisa aprovou, não tem o que discutir mais. Havendo disponibilidade no mercado, a gente vai comprar e vai atrás de contratos que fizemos que era para ter chegado aqui", disse o presidente aos apoiadores, sem entrar em detalhes a quais vacinas se referia. O vídeo da conversa foi divulgado por um canal de apoio ao governo no YouTube.

Horas depois, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, divulgou um novo vídeo, com uma versão maior da conversa no Alvorada. Nos trechos suprimidos inicialmente, Bolsonaro voltou a colocar em dúvida a eficácia da Coronavac e defender o tratamento precoce, composto por medicamentos sem comprovação científica de que ajudam a combater a covid-19.

“Não desisto do tratamento precoce, não desisto. A vacina é para quem não pegou ainda. Essa vacina tem 50% de eficácia, ou seja, se jogar uma moedinha pra cima, é 50% de eficácia”, afirmou Bolsonaro. A Coronavac tem índice geral de eficácia de 50,4%, acima do mínimo exigido pela Anvisa. Segundo estudos, a taxa do imunizante para evitar casos leves e moderados da doença é de 78% e de 100% nos graves.

O início da vacinação em São Paulo foi visto como derrota política para Bolsonaro. O Ministério da Saúde planejava um evento no Palácio do Planalto para a terça-feira, 19, para marcar o início da campanha de imunização no País para tentar mostrar protagonismo do governo federal no enfrentamento à pandemia. Doria, porém, foi mais rápido e venceu a corrida pela foto da primeira pessoa imunizada no País - uma mulher, negra, enfermeira em um hospital público de São Paulo.

Doria é hoje o principal adversário político de Bolsonaro e potencial rival na disputa pela Presidência da República em 2022.

O governo federal, por sua vez, tinha como principal aposta a vacina produzida pela Universidade de Oxford em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Um lote com 2 milhões de doses do imunizante deve ser importado da Índia nos próximos, mas o país asiático frustrou os planos de Bolsonaro ao atrasar o envio em alguns dias.

Em outubro, após o Ministério da Saúde fechar um acordo para adquirir a Coronavac, Bolsonaro chegou a dizer que não compraria a vacina por causa da sua origem chinesa, atendendo a uma pressão de grupos ideológicos que apoiam o governo e veem na China uma ameaça comunista.  "Da China nós não compraremos. É decisão minha. Não acredito que ela transmita segurança suficiente a população pela sua origem, esse é o pensamento nosso", diz Bolsonaro, no dia 21 de outubro, em entrevista à rádio Jovem Pan.

Doria inicia vacinação logo após aval da Anvisa

O governador paulista iniciou a imunização no Estado horas após a Agência Nacinonal de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberar o uso emergencial da Coronavac. Doria abriu a entrevista coletiva com uma crítica direta ao governo federal. “Hoje é o dia V. É o dia da vacina, é o dia da verdade, é o dia da vitória, é o dia da vida”, disse. “É o triunfo da vida contra os negacionistas, contra aqueles que preferem o cheiro da morte ao invés do valor e da alegria da vida.”

Logo depois, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, reagiu e disse que a vacinação em São Paulo foi "jogada de marketing" e ameaçou ir à Justiça. “Todas as vacinas produzidas pelo Butantã foram contratadas de forma integral e exclusiva, todas, inclusive essa que foi aplicada agora. Então, é uma questão jurídica. Todo o custeio do Butantã é contratado e pago pelo Ministério da Saúde, pelo SUS, pelos senhores. Não foi com nenhum centavo de São Paulo", disse Pazuello ontem.

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