A vida do camaronês jogado em alto-mar

Caso de clandestino que viajou em navio de Malta só será resolvido após júri popular

Julio Cesar Lima, especial para o Estado / Curitiba,

18 Agosto 2012 | 21h47

Uma história que começou há 60 dias na África, a 7,4 mil quilômetros da América do Sul, e quase acabou sobre um estrado de madeira em alto-mar, já em domínio brasileiro, deve resultar em um júri popular em que somente os jurados falam português. Mais: a vítima e os seis acusados não falam a mesma língua e, enquanto não chegarem a um veredicto da Justiça, terão de ficar no Brasil.

A primeira citação ao Brasil, aliás, é anterior ao episódio. Tudo começa em janeiro, quando a tripulação do navio Orient Express, de bandeira asiática, descobriu o camaronês Ondobo Happy Wilfred, de 28 anos, viajando de forma clandestina e o deportou de volta para casa. Em relatório assinado pelo homem, natural de Yaoundé, há a informação de que gostaria de vir para o Brasil. Anteriormente, conforme postou na internet, já havia viajado para Rosário, na Argentina.

Sua vontade de deixar o continente ficou clara em 13 de junho, quando embarcou clandestinamente no navio de bandeira maltesa Seref Kuru, que seguia para o Brasil. O homem alega que não sabia o destino do navio. Após oito dias escondido, já sem obter comida, procurou a tripulação. Segundo depoimento à Polícia Federal brasileira, foi quando acabou trancado em uma sala da embarcação, onde foi torturado e verbalmente agredido.

Após mais quatro dias trancado, a tripulação o abandonou em alto-mar, a 8 mil milhas náuticas da costa, com uma lanterna e uma pequena quantia em dinheiro, sobre um pallet. Cerca de 11 horas depois, um navio chileno encontrou o camaronês em alto-mar e efetuou o resgate. O navio que salvou o homem entrou, então, em contato com as autoridades brasileiras. Foi quando um problema de viagem virou investigação internacional.

Entre quartos e tribunais. Na sexta-feira, 13 dos 19 tripulantes (17 turcos e 2 georgianos) do Seref Kuru embarcaram de São Paulo para Istambul, na Turquia, depois de ficarem em liberdade vigiada em um hotel de Paranaguá (PR), a 100 quilômetros de Curitiba, desde 9 de julho. Nesse dia, Ondobo denunciou a tripulação por racismo, tortura e tentativa de homicídio.

Em despacho proferido no dia anterior, o juiz federal Vicente de Paula Ataíde Júnior havia acatado parcialmente denúncia feita pelo Ministério Público e considerado que os 13 não tiveram participação direta em nenhum crime. “Apesar de todos terem o dever moral e humanitário de ajudar o náufrago.” Já o capitão e cinco tripulantes foram notificados a dar explicações - em um texto traduzido - e devem responder a um júri popular.

Enquanto isso, o africano também não poderá deixar o País. Hospedado no Hotel Líder, no centro de Paranaguá, a menos de 50 metros do Sultan Hotel, onde estavam os tripulantes acusados, ele passa a maior parte do tempo no quarto, sempre acompanhado de perto por um segurança da empresa BPA.

De temperamento instável, na sexta-feira, irritou-se ao ser questionado pelo Estado sobre uma suposta atuação política em seu país, o que seria um dos motivos pelos quais não quer voltar. Durante o dia, Ondobo passa algumas horas no quarto, onde recebe pelo menos três refeições diárias e tem um computador à disposição. No início da tarde, costuma ir ao Parque da Aviação para correr e se exercitar. Vestindo tênis e roupas da moda, em nada lembra a pessoa frágil encontrada no mar. “Ele chega a escolher comida e a reclamar que não tem barbeador elétrico”, disse uma fonte que pediu anonimato.

Deportação e prisão. O caso ainda deve estender-se por semanas. Ondobo, que tem recebido acompanhamento do advogado José Antônio Schuller da Cruz, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Paranaguá, vai permanecer na cidade até o fim do processo e depois deve ser repatriado para Camarões.

Já o comandante Coskun Çavdar deve responder pelos crimes de tortura e tentativa de homicídio, juntamente com Ihsan Sonmezocak, Mamuka Kirkitadze, Zafer Yildirim e Ramazan Ozdamar. O marinheiro de convés Orhan Satilmis responderá pelo crime de racismo, além de tortura e tentativa de homicídio.

A principal prova é uma foto deixada pelo camaronês a bordo, e depois encontrada pela PF, que confirmaria sua detenção.

Além dos réus, a decisão também determina a citação de consulados e embaixadas dos países de origens dos envolvidos - e destaca a tradução de todo o material. Em caso de condenação, as penas vão de 8 a 34 anos - e devem ser cumpridas no Brasil.

Defesa diz que navio tem seguro por viajante irregular

Na opinião do advogado dos tripulantes, Giordano Saddai Vilarinho Reinert, há pontos obscuros na história do suposto náufrago. Segundo ele, o fato de o navio ter um seguro contra clandestinos coloca em xeque as afirmações de Ondobo. A apólice de seguro, feita pela Navigators, cobre até US$ 50 mil por clandestino. “Por que eles fariam algo assim (tentativa de homicídio) se havia cobertura de seguro? Bastava entregá-lo para as autoridades. Quanto ao racismo, todos têm famílias em suas cidades e alguns são casados ou mantêm amizades com pessoas negras. Dessa forma, soa no mínimo estranha essa acusação de racismo”, diz, lembrando que o Suruf Kuru faz a rota entre a África e o Brasil há diversos anos.

Giordano também se apoia no depoimento do médico Aaron Reinert, que atendeu Ondobo em Paranaguá. “Exame médico mostrou que não havia marcas nem sinais de tortura”, disse, citando também o depoimento de Gicu Lucian Vasilache, comandante do navio chileno que resgatou o camaronês, já com hipotermia. Ondobo teria dito a ele que estava em um “pesqueiro”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.