A vida e o sonho da heroína de Janaúba

Heley deu a vida pelos seus ‘filhinhos’ da creche Gente Inocente; ser docente era a vocação

Felipe Resk e Tiago Queiroz, Enviados a Janaúba (MG)

15 Outubro 2017 | 03h00

Menos de 24 horas antes de se tornar uma das 11 vítimas da tragédia da creche Gente Inocente, a professora Heley de Abreu, de 43 anos, subiu a escadaria da Catedral do Sagrado Coração de Jesus, no centro de Janaúba, a 560 quilômetros ao norte de Belo Horizonte, para a reunião de crisma do filho mais velho. Na paróquia, conversou com Hélia Pereira, de 48, com quem trabalhou na década de 1990. “Comadre, comadre, cê tá rouca demais, não vai dar aula amanhã, não”, recomendou a amiga, que hoje é diretora do Serviço Escolar do município. “Só porque cê agora é chefe, tá querendo me ordenar”, respondeu, brincalhona. Na despedida, falou a sério: “Não falto, comadre. Preciso cuidar dos meus filhinhos”, sem saber que estava prestes a seguir à risca o significado de “professor” - aquele que professa.

Moradora de Nova Porteirinha, vizinha de Janaúba, Heley cruzou bem cedo a ponte do Rio Gorutuba, na divisa entre as cidades, para estar às 7 horas na Gente Inocente, então uma escolinha com apenas 81 alunos matriculados, a maioria filho de lavrador, encravada no anonimato do sertão mineiro. Isso até o incêndio criminoso na quinta-feira, dia 5, que destruiu as três salas de aula, queimou livros escolares e matou 9 crianças (a mais velha, de 5 anos), além da própria professora e do agressor.

Às 9h30, o vigia noturno Damião Soares dos Santos, de 50 anos, bateu no portão de ferro da creche para entregar um atestado médico à diretora. No momento, os alunos tomavam banho de mangueira no pátio ou assistiam a um filme - era semana de comemoração do dia das crianças. Na véspera, todos tinham ido passear em um parque. Funcionário de lá há 8 anos, Damião entrou sem dificuldade, cumprimentou um e outro e caminhou até o salão principal da unidade.

“Vou dar picolé para vocês”, teria dito o vigia, que nas horas vagas vendia sorvete a R$ 1, fabricado por ele mesmo. Então, sacou um recipiente plástico e começou a espalhar um líquido, provavelmente etanol. “Que é que é isso, Seu Damião?!”, reagiu uma professora, do lado de fora. Um palito de fósforo depois, tudo era fumaça, corre-corre, gritaria, choradeira. Lá de Londres, a BBC estampou: “Crianças incendiadas em Minas Gerais”. No mapa, o jornal destacou dois quadradinhos, um para o Rio de Janeiro e outro para Janaúba. Pela distância entre os pontos, deve ter ficado claro que o lugar não fazia parte do Brasil para inglês ver.

“Quem ia imaginar um trem desse, moço?”, foi o comentário mais frequente entre moradores, amigos e parentes das vítimas, que se ocuparam de pular de velório em velório, realizados dentro das casas, e de seguir carros funerários em cortejos pela cidade. Todos eram unânimes em exaltar Heley, responsável por evitar que a tragédia fosse ainda maior. Com mais de 20 anos dedicados à Educação, a professora entrou no hall de heróis brasileiros - mas por ter lutado contra o agressor e, em chamas, conseguir salvar boa parte dos alunos.

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Ainda na quinta, o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), visitou as famílias e destacou uma força-tarefa para o socorro dos sobreviventes - os quadros mais graves precisaram ser transferidos de Janaúba, onde falta até soro, agulha e esparadrapo nos hospitais. O presidente Michel Temer (PMDB) lamentou pelo Twitter: “Eu que sou pai imagino que esta deve ser uma perda muitíssimo dolorosa”. Na missa de sétimo dia da professora, o bispo Dom Ricardo Brusati, da Diocese de Janaúba, leu uma carta enviada pelo papa Francisco. “O Santo Padre pede ao céu o conforto e restabelecimento para os feridos, coragem e a consolação da esperança cristã para todos atingidos por esta tragédia absurda.”

Internautas correram para criar a página de Heley de Abreu no Wikipédia, mas erraram a grafia do nome dela - escrevendo “Helley”, com dois Ls; em vez de um L só. “Ganhou notoriedade ao dar sua própria vida em um ato de coragem para salvar crianças”, diz o verbete da professora, que atingiu o total de 13 linhas, após ser atualizado pela última vez. Para comparação, a página de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC e descrito no mesmo site como “um criminoso brasileiro”, tem 34.

Família. Na manhã de segunda, 9, um veículo a serviço da prefeitura de Janaúba estacionou à sombra de uma figueira asiática, em frente à casa de Valda Terezinha Abreu Silva, de 66 anos, mãe da professora. Reunidos lá, os parentes receberam os objetos de Heley que foram resgatados do incêndio: a chave do carro, canetas coloridas, um estojo, uma bolsa esfarelada e metade de uma fotografia do marido Luiz Carlos Batista, de 49, com o filho Breno, de 15.

Em 1993, Luiz Carlos fazia curso técnico de prótese dentária em Montes Claros, cidade polo da região norte de Minas, quando se apaixonou pela atendente da loja de material de construção do irmão. Na época, Heley era uma jovem de 19 anos. “Ela tinha um sorriso muito marcante”, disse o marido. O relacionamento começou depois de um convite para beber cerveja e terminou em um casamento com quatro filhos - Pablo, já falecido; além de Breno, Lívia, de 12, e o bebê Olavo, de apenas 1 ano e 2 meses. “Carlinhos foi o primeiro e o único namorado dela”, relembrou dona Valda.

Nascida em 12 de agosto de 1974, em Montes Claros, Heley mudou-se para Janaúba aos 10 anos, após o pai, o comerciante José Rodrigues da Silva, arrumar emprego em uma loja de móveis na cidade. Alfabetizada desde os 5, a professora estudou em escolas públicas e primeiro cursou Contabilidade para ajudar nos negócios da família. O sonho dela, no entanto, era ensinar as crianças da região, moradoras da roça, a ler e escrever.

Professora aposentada, a tia Doralice de Abreu, de 65 anos, diz ter sido a maior inspiração de Heley. “Quando assumimos uma sala de aula, damos a vida pelos alunos, mas no sentido figurado. Ela deu, de fato”, afirmou. “O brinquedo de Heley, na infância, era ser professora. Ela calçava meus tamancos, vestia minha saia e saía catando lápis e caderno - as amiguinhas eram os alunos”, conta dona Valda sobre Heley, a mais velha dos três filhos. “Ela gostava tanto que até comprei um quadro de giz para a casa.”   

Conhecido como “Carlinhos Dentista”, o marido Luiz Carlos é dono de um pequeno laboratório em Nova Porteirinha, responsável por diminuir o número de bocas banguelas na região. Uma das próteses que fabricou, no ano passado, foi para Damião, o vigia que incendiou a creche. Na hora da tragédia, Carlinhos estava fazendo uma prova em Mata Verde, a 276 quilômetros de Janaúba, onde cursa o 4.º período de Odontologia. “Era meu sonho, Heley fez de tudo para eu não desistir e pegamos empréstimo para financiar os estudos”, disse. Da prefeitura, Heley recebia R$ 1,7 mil. Por causa da faculdade de Carlinhos, a família contraiu uma dívida de mais de R$ 13 mil.

Em 2002, os dois viveram a primeira crise no casamento. Durante o baile de carnaval, o primeiro filho do casal, Pablo, de 4 anos, morreu afogado na piscina de um clube, no Balneário Bico da Pedra. À época, Heley estava grávida de 7 meses. “Eu entrei em depressão. Não sei de onde ela encontrava força, mas era Heley quem me confortava”, afirmou Carlinhos, que hoje é colega de faculdade de uma amiga do filho. Anos depois, a professora também encontrou o pai, de 52, que morreu dormindo.

Aprovada em concurso municipal há 8 anos, Heley trabalhou a maior parte da vida com contratos provisórios ou professora substituta. Só foi nomeada para o cargo em 2016. “O sonho dela era a efetivação, uma luta que estava se arrastando há muito tempo. Em cidade do interior, cê sabe, faz um concurso mas, na hora de contratar, o prefeito coloca o pessoal dele. Aí, vem outro prefeito e troca todo mundo. Nunca chega a vez de quem passou na prova”, disse Carlinhos. “Finalmente acontece e o primeiro lugar que ela vai trabalhar é na Gente Inocente.”

“Quando ela foi efetivada, pediu prioridade para ensinar ao maternal. Ela chamava as crianças de ‘meus filhinhos’, nunca de ‘alunos’”, contou Carlinhos. “Todo dia, ela chegava em casa e ficava me mostrando as fotos dos meninos da creche no celular.” Segundo o marido, Heley nunca recebeu uma advertência ou ficou sem emprego. “Ela não só empurrou o cara, como, mesmo pegando fogo, entrou e saiu da escola três vezes, levando as crianças para fora. Só parou mesmo porque a força acabou. Ela poderia ter se salvado, mas agiu por impulso materno.”

Devota de Nossa Senhora de Aparecida, a família acendeu sete velas, uma por noite, em orações a Heley. Com cerca de 20 pessoas, entre parentes, amigos e vizinhos, os encontros ocorreram na casa de dona Valda, onde uma foto da professora decorava o terraço. “Da tragédia, nasce o amor. Veja quanto amor estava escondido mas saiu para ajudar o irmão”, disse um dos presentes, pouco antes de o grupo iniciar uma música do padre Fábio de Melo. “Incendeia minha alma! Incendeia minha alma! Incendeia minha alma, senhor!”, cantaram, de mãos dadas. Aprendendo a andar, o bebê Olavo repetia ao ver a imagem de Heley: “Mã-mã... Mã-mã...”

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Início. Separado do centro por 18 quilômetros de estrada de barro e plantações de banana, o vilarejo de Vila Nova das Poções, na zona rural de Janaúba, abriga a escola onde Heley começou a dar aula, em 1995, mesmo sem ter formação (ela faria Pedagogia depois). Localizada em uma área remanescente quilombola, o colégio fica em um terreno doado por um latifundiário da região, atualmente homenageado no nome da unidade: Escola Estadual Julião Mendes Ferreira.

Até 2008, o colégio pertencia ao município e se chamava Jacinto Mendes. Na ruazinha de terra, asfaltada recentemente, só havia a escola, uma igreja e um bar. Por causa do acesso ruim, ia para lá às segundas e só voltava no sábado. “A gente ficava a semana toda, morando em uma casinha dos fundos da escola. Eram 13 meninas, todas muito jovens, inclusive a Heley”, contou a amiga Hélia Pereira, que era a diretora da unidade. A casa das professoras tinha apenas um banheiro e cinco camas de cimento - para dormir, as docentes espalhavam colchões pelo chão de cimento queimado. Às vezes, ficavam quase 20 dias sem voltar para casa.

Nem sempre os ônibus da cidade chegavam ao vilarejo, por isso não era raro Heley pegar carona na beira da estrada para dar aula, carregando sacolas com alimentos (gostava de lasanha e macarrão) e trouxas de roupa. “A gente vinha em carro de leite, em pau-de-arara”, disse Hélia. “Preparávamos tudo na cozinha da escola, mas como Heley não gostava de cozinhar, ela ficava sempre no grupo da faxina.” A água, salobra, era imprópria para consumo. “Quando esqueciam de levar os galões, a gente fazia racionamento: era um alvoroço.”

Com o quadro reduzido, as professoras trabalhavam em dois turnos. No primeiro, ensinavam uma turma até a antiga 4.ª série (atual 5.º ano). No outro, uma disciplina do fundamental 2. Lá, Heley ensinava Matemática. “Só assim compensava o salário”, disse Hélia. “Ela brigava comigo o tempo inteiro porque queria trabalhar com as crianças menores, eu falava que não dava certo”, afirmou. “Queria porque queria alfabetizar, era muito empolgada. Gostava de ver os meninos escrevendo a primeira letra, a primeira frase, o próprio nome. Eram crianças muito carentes, traziam uma dificuldade de entendimento muito grande.”

A maioria das professoras casou com homens de Vila Nova das Poções, já Heley namorava com Carlinhos. Na primeira gravidez, deu aula durante os 9 meses de gestação. “Era uma pessoa muito saudável, vivia chupando limão. Impunha muito respeito com o vozeirão dela”, lembrou Hélia. Atual diretora da unidade, a professora Gislene Oliveira, de 35 anos, dividia a disciplina de Matemática com Heley. “Ela era muito criativa e sistemática”, disse. “Muitos alunos vieram me contar que o primeiro teatro que participaram na vida foi com ela.”

Criada na roça, a ex-aluna Cleide dos Reis, de 35 anos, foi alfabetizada aos 10 e lembra das classes de Heley. “Tenho muito orgulho de ter sido aluna dela”, disse. “Eu ia para a recuperação e lembro de ficar jogando dominó com ela”, contou. “Naquele tempo, professor batia na gente - em mim, mesmo, já jogaram apagador, giz… Mas a Heley era diferente, não fazia nada disso”.

Proprietário de um supermercado, o empresário Laércio Souza, de 34 anos, agradece à professora. “Heley era boa demais, muito dedicada, tinha o respeito de todos os alunos”, afirmou. “Ela dizia para a gente estudar, para ser alguém na vida”, disse o morador de Janaúba, que nasceu em uma casa de barro, onde também moravam os pais e 6 irmãos. “Graças a Deus, eu tenho uma vida mais confortável hoje. Não teria conseguido, se não fosse a escola.”

De lá para cá, a escola passou por reforma para construção de um anexo com mais salas de aula, mas não tem nem sequer extintores. Consumida pelas chamas, a creche Gente Inocente também não tinha qualquer sistema anti-fogo ou autorização dos Bombeiros, apesar de ter sido inaugurada no ano 2000.

“A necessidade de combate a incêndio seria de um projeto técnico simplificado, com sinalização de emergência, extintores, saída de emergência e treinamento de brigada para as professores”, comentou o coronel Primo Lara de Almeida, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, que passou a coordenar uma inspeção em imóveis públicos, após a tragédia. “Para o prefeito, estava tudo ok, porque já vinha assim de outros governos”, disse. “Infelizmente, aqui no Brasil, acontece um fato e aí é que vai correr atrás. Depois que acontece é que o pessoal atenta, né?”

Homenagem. Também foi depois do acontecido que atentaram para Heley. Oficialmente, o primeiro reconhecimento veio do marido - mas para a liberação do cadáver no hospital. Com 98% da superfície carbonizada, Carlinhos só conseguiu identificar o corpo por causa do queixo protuberante e de uma prótese dentária, dois pré-molares, que foi fabricada por ele mesmo e resistiu ao fogo.

Sob olhar de admiração de centenas de pessoas, o velório aconteceu com o caixão fechado, na tarde de sexta, 6. O corpo de Heley foi transportado no carro dos Bombeiros até o cemitério. Foi sepultada no jazigo da família, ao lado do filho Pablo. Mais tarde, autoridades municipais e empresários da região estiveram reunidos para discutir a reforma da creche incendiada. “E se ela se chamasse ‘Gente Inocente - Heley de Abreu’?”, sugeriu um dos presentes. Os demais participantes até aprovaram a ideia, mas empurraram a definição para outro dia.

Por meio da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, o presidente Michel Temer anunciou no domingo, 8, que Heley vai ser condecorada com a Ordem Nacional do Mérito. A honraria é concedida a pessoas que deram exemplo de dedicação e serviço ao País.

“Este é o caso da Professora Helley Batista, que sacrificou sua própria vida para salvar a vida de seus alunos, em um gesto de coragem e de heroísmo que emocionou a todos”, dizia a primeira nota divulgada pelo governo Temer. Lá de Janaúba, Carlinhos até comentou a homenagem: “Escreveram o nome dela errado, é com um L só.”

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