''A vida passou a ser banal. Tiram vida de inocentes e vira número''

DEPOIMENTO - Daniela Duque: designer, mãe de Daniel Duque, morto por um PM; mãe de jovem morto questiona treinamento de policiais do Rio em confronto em via pública

O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

"Eu já não estou acreditando mais em despreparo. Que tanto despreparo é esse? Porque há casos isolados. Mas que tanto despreparo é esse? É uma seqüência. Foram mais de cinco em um mês, todos envolvendo policiais militares. E é impressionante que eles não se dêem conta do negócio. Aconteceu um, aconteceu dois, aconteceu...Não sou nenhuma especialista em Segurança Pública. Fui jogada nesse meio por uma infelicidade, mas, na minha opinião, enquanto houver brechas na lei, essa que favoreceu o assassino confesso do meu filho, a impunidade vai reinar. Eles se garantem muito nessa impunidade. A mudança tem que começar com a revisão das leis.Vida passou a ser uma coisa banal. Você tira a vida de pessoas inocentes e vira número. Virou estatística no Rio. Então, tem realmente que rever. Só vai haver mudança no comportamento da Polícia Militar quando houver mudança das leis. A partir do momento em que eles não tiverem o apoio na lei, que não tiverem brechas, vão pensar duas vezes. Se percebe claramente que eles não estão nem aí, não param para pensar antes de atirar, eles não querem saber. Estão garantidos nessa impunidade, nessas brechas que as nossas leis, infelizmente, garantem a eles.Agora você não acha brecha para defender a vítima. Eu estou numa luta, desde que eu enterrei o Daniel, correndo para que a lei seja cumprida, estou ralando e muito. Foi toda mal conduzida a nossa investigação. Agora vem essa liberdade desse PM, e tem uma promotora envolvida. Gente, onde é que vai parar isso? Quando é que vai aparecer alguém para botar a cara e falar ?não, vamos mudar a lei, vamos fazer, vamos acontecer?? Porque chega. Você não vê um pronunciamento de um comandante da PM para dizer: ?nós erramos. Foi erro. Nós vamos rever, nós vamos fazer e acontecer.? Não. É como se estivessem apoiando. Eu agora soube que o assassino do Daniel está fazendo serviços administrativos. Espera aí, no mínimo era para estar afastado da função.Há milhões de falhas. Existe corporativismo, sim. As autoridades subestimam a gente. Estou sofrendo na pele, estou passando por isso agora. E tem que começar pela mudança das leis. Existe a parte boa da polícia, gente. Há a parte boa. Eu mesma recebi depoimentos e e-mails de policiais me dando força, de como eles sofrem com isso. Está acontecendo uma desmoralização da polícia. E eles não podem deixar isso acontecer. Qual é o crédito que essa polícia tem hoje perante a sociedade? Nenhum.Agora, não sei se eles vão esperar acontecer mais alguma coisa para começarem a rever os critérios de aprovação, o treinamento dessas pessoas, o preparo que eles dão. Será que oito meses são suficientes para colocar arma na mão de uma pessoa que está mais do que provado que é incapaz de ter essa autoridade toda? Eles vivem sob pressão. O Rio de Janeiro é um lugar violento. Eles temem um milhão de coisas. Mas a população de inocentes não tem absolutamente nada com isso. É uma instituição criada exclusivamente para defender, para colocar ordem, e não é isso que está acontecendo. Os papéis se inverteram. Nós estamos sendo mortos, assassinados por PMs. Eles têm que parar e mostrar serviço. Senão, não sei aonde a gente vai. Está tão assustador, e agora o caso desse rapaz...Essa é minha luta. Quando fiquei sabendo que (o PM que atirou em seu filho) foi solto, desesperei, todo mundo ligando, ?como é que pode?. Foi, como eles dizem, ?uma falha técnica na lei?. Mas essa falha poderia ser tanto a favor como contra a liberdade. Agora, e a falha técnica de ter matado meu filho? É isso que a gente fica tão revoltada. A lei é tão rigorosamente cumprida a favor de criminoso, e precisa ser implorada, suplicada e assistida de muito perto para ser cumprida para a vítima.Mas vou ser sincera: não tem como desistir. Se a gente não tiver esperança, vai fazer o quê? As pessoas não podem perder a esperança, porque quando perde a esperança se acomoda de uma tal maneira... Não são só as autoridades que são culpadas. A sociedade tem parcela de culpa.Quando você corrompe um policial, quando você dá dinheiro, você está fazendo parte disso. Esse jeitinho brasileiro tem que mudar. O comportamento da sociedade tem que mudar. E, se realmente você perder a esperança e sentar para ver acontecer, vai virar um caos total. Não perco a esperança não, e vou ser sincera: a liberdade desse policial, você não sabe o gás que me deu, como me impulsionou. Reascendeu dentro de mim uma coisa por Justiça, por correr atrás mais ainda. E acho que as pessoas têm que ter esse fôlego, pegar e dizer ?não, vamos mudar, vamos fazer, pelo bem de todos.? Não sou só eu, pode ser qualquer um."

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