A violência paulistana narrada por quem a leva para a televisão

Para equipe do seriado ?9 mm?, qualquer um sabe dizer o que é ser vítima

, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2009 | 00h00

Quem entende do assunto é chamado para enriquecer o debate - com esse intuito, o Estado convidou a equipe de produção da série 9mm: São Paulo, da Fox, que retrata o cotidiano policial na capital paulista, para falar sobre a pesquisa que antecedeu o lançamento da série, na qual foram entrevistados policiais e vítimas de violência urbana. A proposta era que discutissem também experiências pessoais. Após uma hora de debate, o que se verificou, simplesmente, é que não era preciso ser especialista: em São Paulo, sobre o sentimento de se tornar vítima, qualquer um pode falar. Na equipe de produção do programa, entre produtores, atores, pesquisadores, funcionários da cozinha, todos já haviam sido vítimas. A pessoa mais "vitimizada" - furtada, roubada, agredida - foi o ator Norival Rizzo (que interpreta, na série, o estressado investigador Horácio), por seis vezes. No total, foram três carros roubados, um celular, dinheiro e documentos. "Em cidades menores, quando algum crime acontece, é o assunto da semana, do mês. Aqui não é novidade para ninguém. Estranho é nunca ter passado por isso."Nas situações de stress - tal como nos episódios do seriado -, eles contam, a visão treme, as imagens escurecem. "Só abaixei no carro e fiquei esperando que nenhuma bala me atingisse nem a meu pai", conta o assistente de pesquisa da série Henrique Melhado, de 24 anos, que passou por experiência traumática em 2001 - o carro em que estava com o pai, na Mooca, foi atingido por 15 tiros, na porta da garagem de casa. "É possível acreditar? 15 tiros de manhã cedo e nunca descobriram o autor."Mesmo quem teve poucas experiências como vítima, caso do diretor da série, Michael Ruman - uma só vez assaltado, dentro de uma farmácia, R$ 10 levados -, acaba mudando hábitos por conta da proximidade da violência. "Nunca repito o caminho de volta para casa, diminuo (a velocidade) para não parar no semáforo... Não sou paranoico, mas tranquilo não dá para ficar."Nas pesquisas que fez para roteirizar a série, Newton Cannito aproximou o olhar, não somente das vítimas, mas do bandido. "Ele odeia que a vítima diga para ?ficar calmo?. Infelizmente, num momento como esse, a saída é acabar se adaptando e torcer para acabar logo", diz. Cannito foi uma única vez assaltado, na Praça da República, em dez anos de São Paulo.O relacionamento com a violência, tão perto ela está, acaba assumindo diferentes facetas. O produtor executivo da série, Roberto D?Ávila, após ser assaltado duas vezes e ter três carros roubados, resolveu, em vez de fechar os vidros nos semáforos, abri-los. "É para olhar na cara da pessoa, ver qual a expressão do bandido. É uma maneira de encarar, literalmente, a violência."

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