A volta de Lula ao palanque

Começa com cara de filme velho a campanha pelas eleições municipais do ano que vem. O ex-presidente Lula a abriu oficialmente anteontem, no Congresso da UNE, em que enfiou goela abaixo do PT a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, à Prefeitura paulistana. Como fez com Dilma para a Presidência da República.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2011 | 00h00

Quase simultaneamente, Lula abriu um site com uma primeira gravação em que deixa claro que voltou ao palanque depois de um breve intervalo de seis meses - ele, que governou oito anos sem jamais abandoná-lo. Tudo precedido de três manifestações da presidente Dilma, a última resumindo o espírito da coisa: "Recebi uma herança bendita".

O filme fica velho quando a ele se junta uma oposição sem rumo, dividida, como na eleição de 2010 - e, por último, amansada com o resgate de sua principal referência, Fernando Henrique Cardoso, pela presidente Dilma.

É nesse cenário que Lula explora um eficiente discurso em que críticas aos erros de hoje e de ontem são vendidas como preconceito da elite e da mídia. Fala às mulheres, aos estudantes e aos emergentes das classes C e D, beneficiados pela sua política assistencialista.

Tudo isso como passageiro de um avião do PR, protagonista do escândalo do Ministério dos Transportes, cuja intervenção mereceu seus elogios, como se os demitidos pelo esquema de corrupção não tivessem nada a ver com seu governo. "Quem erra tem que sair", diz, com cara de paisagem.

Se a economia não conspirar contra Dilma, bem nas pesquisas, esse discurso continuará eficiente, pelo menos, para a campanha municipal de 2012.

De terno...

Em São Paulo, a obsessão de Lula é quebrar a hegemonia do PSDB, o que tenta apostando em um nome novo, desvinculado das disputas anteriores. E, principalmente, de perfil mais tucano que petista, caso de Fernando Haddad, cuja formação acadêmica e atividade professoral seria mais palatável ao eleitor médio paulistano. A face petista que lhe falta para a adesão dos segmentos mais populares, Lula espera suprir como seu cabo eleitoral. No resto do País, a disputa é, de forma geral, com o PMDB, cuja capilaridade lhe confere cerca de 1.250 prefeituras contra pouco mais de 500 do PT.

...e de macacão

E o PSDB, enquanto isso, intensifica a sua estratégia de aproximação com os movimentos sindicais. O partido já conversa com cinco centrais sindicais (a exceção é a CUT), e estuda a criação de um núcleo sindical ligado ao Diretório Nacional. Em São Paulo, costura uma aliança com a Força Sindical, na contramão do diagnóstico de Fernando Henrique Cardoso, de que disputar com o PT os movimentos sociais é perder tempo... Sem janela

São bastante reduzidas, a esta altura, as chances de aprovação de uma "janela" para mudança de partido até setembro. Por ora, o PSD é a única opção para quem quer mudar. Sua mais recente façanha é no Rio, onde o próprio PMDB, maior força no Estado, estimula a migração de filiados para enfraquecer o ex-governador Anthony Garotinho (PR). "O PMDB no Rio está com overbooking", diz um parlamentar, que prevê um PSD carioca com nove deputados estaduais e oito federais.

África que une

Nizan Guanaes é o "novo melhor amigo" do ex-presidente Lula. O interesse comum pela África os reconciliou. Em 2002, quando comandava as campanhas do PFL - inclusive a de Roseana Sarney à Presidência -, o publicitário comparou o PT ao Taleban: "Só falta o turbante, a barba já tem".

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