A voz do Samba

Há 16 anos à frente da transmissão do carnaval de São Paulo, Mestre Sabú é quem emociona e faz bater mais forte o coração dos foliões no sambódromo

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

14 Fevereiro 2009 | 00h00

"A passarela é de vocês. Arrepia, rapaziada." Só depois desse grito a escola tem permissão para deixar a concentração e começar o desfile. O sambódromo estremece. Quem dá o sinal verde para o show é Mestre Sabú, radialista que há 16 anos transmite o carnaval de São Paulo. Sua voz é tão conhecida dos sambistas como a do apresentador Cid Moreira, que fez história no telejornalismo da TV Globo. A diferença: pouquíssimos conhecem o rosto de Sabú. "Ouvi-lo dá uma emoção enorme", diz Edmar Thobias, de 50 anos, presidente da Vai-Vai. "É o mesmo que a gente sente quando o padre diz ?aceita essa mulher?. A gente sabe que não tem mais jeito. É enfrentar a fera e entrar na passarela." Sabú sabe disso. "Muita gente já me disse que nessa hora tem até dor de barriga", diverte-se. Enquanto os corações dos foliões arrebentam, ele não demonstra emoção. "Eu não tenho escola preferida", explica, com o mesmo discurso de comentarista de futebol, que sempre dissimula quando o assunto é o time preferido. "Só fico triste quando chove. O sambista espera o ano inteiro e quando chega o dia vem um aguaceiro e acaba com tudo." Sabú começou a transmitir o carnaval quando as escolas ainda desfilavam na Avenida Tiradentes, centro de São Paulo. "Nessa época, o samba era muito diferente. A polícia batia nos carnavalescos. Achavam que samba era coisa de vagabundo. Hoje, o carnaval de São Paulo é grande e tem um monte de personalidades para abrilhantar a passarela. Carnavalesco ganhou status. Quem imaginaria isso?" GAFIEIRA Mineiro, de Itajubá, Sabú chegou à capital paulista com 17 anos - hoje está com 82, mas parece ter 20 a menos - , ainda usando o nome de batismo, Jurandir de Oliveira. "Vim para São Paulo como um grito de independência, sem dinheiro no bolso, lugar para morar ou gente conhecida para me acolher." Começou na cidade lavando carros e o pouco que ganhava gastava nas gafieiras de São Paulo. Frequentou, por exemplo, a Som de Cristal, uma das mais famosas da época, que ficava na Rua Bento Freitas, no centro. "Quem tinha samba nos pés não saía dali", diz. Ainda no centro, na Rua Florêncio de Abreu, circulava no Elite 28. Muito popular, o salão foi palco de uma das maiores tragédias da cidade. "Pegou fogo e morreu muita gente lá", lembra-se. Em cima da casa funcionava uma fábrica de tecido. No baile de Santo Antônio, 13 de junho de 1953, a tecelagem pegou fogo e a fumaça causou pânico no Elite 28. "Como a casa tinha uma escada estreita, muita gente morreu pisoteada." Ele não estava naquela noite lá, por sorte. Nas gafieiras, aprendeu a tocar pandeiro e bongô. Como muitos músicos que trabalhavam na noite também tinham carteira assinada na orquestra da TV Record, ele conseguiu uma vaga na emissora. Assim, com seu bongô, acompanhou artistas internacionais como Nat King Cole, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Sammy Davis Jr. "Era tão bom que Yma Sumac (estrela peruana) ficou impressionada com meu trabalho ao se apresentar no teatro", conta. Por causa disso, foi convidado a acompanhá-la numa apresentação no Copacabana Palace, no Rio. "Fiquei três dias hospedado no Copacabana", gaba-se, com orgulho. "Mas não gostei da noite carioca. A gente passava fome de madrugada porque não havia nenhum lugar aberto. Não era como São Paulo." Sem qualquer modéstia, Sabú lembra que no tempo em que era jovem costumava impressionar com sua figura. "Andava sempre de terno tropical brilhante. Era bonito. Andava olhando as gatas." Num dia, na saída de um cinema do centro, foi interpelado pelo que hoje é chamado de caçador de talento. "Ele ficou na porta me medindo e, em seguida, se apresentou como produtor de cinema. Disse para passar no escritório dele, porque queria que eu fizesse Orfeu Negro." CINEMA "Achei que ele estava me estranhando. Tinha muito produtor gay. Assim como as mulheres faziam o teste do sofá, muitos homens namoravam os produtores para ter uma chance no cinema." Desconfiado, Sabú não foi ao encontro marcado no dia seguinte. Orfeu Negro chegou ao cinema em1959, e foi premiadíssimo - ganhou Oscar, Globo de Ouro e Palma de Ouro como melhor filme em língua estrangeira. Era uma produção divida entre Brasil, França e Itália, com Breno Mello, o jogador de futebol, no papel de Orfeu. Mais tarde, Sabú participou da série de sucesso da TV brasileira O Vigilante Rodoviário, de 1961. "Fazia um gângster, com a atriz Rosa Maria Murtinho." E o carnaval? "Logo que cheguei a São Paulo saí na Iracema, escola de samba do Ipiranga (na zona sul)." Sabú pegava o bonde no Bosque da Saúde, bairro próximo do Ipiranga, e descia na Avenida São João. "Lá, tinham baldes de água, onde lavávamos os pés para calçar os tênis. Só então íamos para o desfile lá mesmo, na São João." O carnaval ficou um pouco de lado quando ele desembarcou nas gafieiras do centro. Isso até Sabú chegar ao Paulistano da Glória, salão da Rua da Glória, que também tinha uma escola de samba. "Daí voltei a desfilar com força total. Depois, parei porque passei a ser locutor do carnaval. Passei a ser uma figura dos bastidores. Fico ali, falando, sem sambar ou beber." Se ele erra todo mundo percebe. "No ano passado, cometi uma gafe. Troquei Unidos da Vila Matilde por Unidos da Vila Maria, ou coisa parecida. Teve gente que foi à cabine ver se estava bêbado." Por isso, Sabú torce mesmo é para não dar nada errado, nem no desfile nem na transmissão."

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