Abadía delatou planos de Beira-Mar

Para acelerar extradição, megatraficante colombiano revelou ao Depen que o outro preso preparava fuga e seqüestros

Rui Nogueira e Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2008 | 00h00

A extradição de Juan Carlos Ramírez Abadía, entregue à Justiça dos Estados Unidos no dia 23 de agosto, foi antecipada e precedida de um acordo em que o megatraficante colombiano se comprometeu a revelar supostos planos do traficante brasileiro Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, para tentar fugir do presídio de segurança máxima de Campo Grande (MS). O esquema veio à tona no início do mês passado, quando a Polícia Federal desencadeou a Operação X.Depois de ter sido achacado por agentes da Polícia Civil de São Paulo, Abadía temia ser morto e pediu que o governo brasileiro antecipasse sua extradição. "Um processo normal dura, em média, dois anos. O dele levou apenas cinco meses dentro do STF (Supremo Tribunal Federal). É óbvio que teve o dedo do Executivo nisso", comentou um policial.Abadía foi preso em São Paulo no início de agosto do ano passado e levado logo em seguida para o presídio federal de Campo Grande, o mesmo em que estava Beira-Mar. O colombiano revelou ao serviço de inteligência do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) que Beira-Mar preparava uma fuga mediante extorsão e seqüestro de parentes de autoridades das três esferas de governos - Legislativo, Executivo e Judiciário. "Toda a operação da PF foi montada com base nas informações repassadas pelo Abadía. Ele só foi denunciado para despistar", assegura a mesma fonte.Abadía começou a pedir pressa na extradição depois que, no dia 13 de abril, o presídio de Campo Grande ficou debaixo de um tiroteio por 15 minutos envolvendo um grupo armado e os agentes penitenciários. Os achaques a Abadía e toda a quadrilha dele levaram o Ministério da Justiça e concordar que para o Brasil era melhor extraditá-lo para os EUA.O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a extradição do colombiano, mas a intenção inicial do governo brasileiro era obrigá-lo a cumprir pelo menos parte da pena de 30 anos a que foi condenado no País por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Nos EUA, o traficante responde a processos por "múltiplos assassinatos". Também pesava a favor da permanência de Abadía a informação, dada por ele próprio, de que mantinha US$ 35 milhões escondidos no País. Diante das ameaças de morte e da revelação dos planos de Beira-Mar, parte da cúpula do Ministério da Justiça mudou o discurso, que era a favor do cumprimento da pena. No dia 20 de agosto, o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, anunciou que o ministro da Justiça, Tarso Genro, havia assinado as portarias de extradição e expulsão com base em um parecer de sua autoria sugerindo as duas medidas. Tuma era um dos assessores que, antes, defendia o cumprimento da punição no Brasil como "medida exemplar", mostrando que o Brasil podia e sabia prender, processar, julgar e manter presos chefões do crime organizado.No dia do anúncio da extradição, Tuma recusou desse discurso e disse que o combate ao crime organizado ganhava mais com o envio de Abadía para os EUA. "Aqui, ele cumpriria a pena e ficaria livre. Nos EUA, há um enorme rol de crimes, incluindo assassinatos, o que permite à polícia continuar as investigações. Ele pode vir a falar e a dar muitas informações, por meio de algum programa de delação premiada, e nós podemos nos beneficiar com detalhes sobre os negócios do traficante e seus parceiros no Brasil ainda desconhecidos."Na quinta-feira, em conversa com o Estado, em Brasília, o secretário Tuma Júnior disse que não houve acordo de nenhuma natureza com o traficante colombiano e que não agilizou o parecer dele para também apressar a extradição. Tuma havia dito, em 20 de agosto, que Abadía deveria sair do País num prazo entre "uma semana e dez dias", o tempo suficiente para que os EUA providenciassem a logística necessária para o transporte do traficante com segurança máxima. Menos de 48 horas depois do prognóstico do secretário, uma equipe do FBI (a polícia federal dos Estados Unidos) desceu com um jatinho em Campo Grande, pegou Abadía, fez escala em Manaus e entregou o traficante à Justiça de Nova York.

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