Abaetetuba: a cidade das 400 bocas-de-fumo

Antigo produtor de cachaça, município hoje sofre com a grande quantidade de jovens viciados em drogas

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Mistura de violência, desrespeito, descaso e machismo, a prisão de L. foi apenas o capítulo mais recente do crescimento dos problemas de segurança na região de Abaetetuba - que nos últimos dez anos mudou radicalmente a rotina e os costumes da população. Em 2005, houve mais de 30 assassinatos na cidade - índice de 21 homicídios por 100 mil habitantes, mais elevado que o de São Paulo."Até meados dos anos 90, era comum dormir de portas e de janelas abertas. Hoje, evito andar na rua à noite. Ladrões já amarraram e bateram nos meus pais e irmãos. Furtam caixa d?água, bicicletas, televisão, tudo", diz a conselheira tutelar Josiane da Costa Baía.O aumento do consumo das drogas e a explosão dos chamados "boqueiros", que vendem a mercadoria no varejo, fizeram aumentar a quantidade de jovens viciados, o índice de prostituição e a quantidade de furtos e roubos. Segundo a polícia, hoje existem mais de 400 "boqueiras" na cidade, de 132 mil habitantes.A violência começou a crescer após a abertura da Rodovia Belém-Brasília, nos anos 70. Até aquela época, a economia do município, formado por 72 ilhas fluviais, era movimentada pela produção de cachaça, feita em mais de 50 engenhos com maquinário do século 19. A chegada de cachaça pela estrada quebrou os engenhos.Mas a localização estratégica da cidade, cortada por rios que deságuam no Oceano Atlântico, acabou colocando Abaetetuba na rota do contrabando e do narcotráfico internacional. A cidade e a vizinha Barcarena se tornaram paradas da rota que passava por Suriname, Guianas e chegava na Europa. "A fiscalização da polícia tinha dificuldades em acompanhar o que ocorria nos rios. Isso levou contrabandistas e traficantes a aproveitarem as vantagens oferecidas pelo local para escapar das autoridades", explica o vereador Vanildo Silva Maciel (PT).Até 1998, o trabalho com contrabando de cigarros, empregos no comércio e no funcionalismo público mantinham parte da população ocupada e movimentavam a economia. A chamada "cidade de ferro", formada pela indústria, dava emprego para engenheiros e profissionais especializados. Moradores da "cidade de tábuas" ficavam com o restante. "Quando a polícia passou a enfrentar o contrabando de cigarros, boa parcela da população perdeu a fonte de renda. Houve, então, aumento do fornecimento de drogas no mercado interno por pequenos traficantes e a explosão do consumo", diz o bispo de Abaetetuba, o italiano d. Flávio Geovenale."A droga chegou. Mas o crime organizado parece que ainda não veio, assim como as armas. O problema maior é causado pelos viciados", diz o major Élson Luiz Brito da Silva, da 3ª Companhia da Polícia Militar de Abaetetuba.

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