Abandono de vagões preocupa zona sul

27 composições da ALL estão sucateadas ao longo de 25 km

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

03 de dezembro de 2007 | 00h00

A imagem é de descaso com os moradores e o meio ambiente. Pelo menos 27 vagões de trens de carga da América Latina Logística (ALL) estão sucateados e abandonados ao lado da ferrovia entre Embu-Guaçu, na região metropolitana, e Evangelista de Souza, em Engenheiro Marsilac, zona sul da capital.As composições, de acordo com moradores, foram largadas pela companhia nos últimos meses depois de acidentes. Estão espalhadas em seis locais, em uma extensão de cerca de 25 quilômetros. A região é de mananciais e pertence à Área de Proteção Ambiental Municipal (APA) Capivari-Monos.Há composições carregadas com soja fermentada a 500 metros da entrada do Parque Estadual da Serra do Mar. "A postura da ALL é absurda. Esse trecho é uma zona de vida silvestre e se destina à conservação da biodiversidade. Não pode haver nenhum produto lá", explica a engenheira agrônoma Maria Lúcia Ramos Bellenzani, da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente e presidente do Conselho Gestor da APA Capivari-Monos.Os vagões não estão só nas matas. O cheiro de enxofre ainda é forte, embora os sete vagões tombados com o produto já estejam abandonados no bairro do Cipó, em Embu-Guaçu, há 17 dias. "Já pedi várias vezes para que a ALL retire os vagões. A resposta que tive é que não tenho nada com isso porque os trens estão no terreno deles", reclama a moradora Aparecida de Fátima Segura, de 42 anos. Na manhã do dia 15 de novembro, quando aconteceu o descarrilamento, seus dois filhos precisaram ser levados ao hospital com alterações cardíacas por causa do susto com o estrondo.Moradores dizem que a empresa demorou quatro dias para limpar o enxofre, mas depois disso abandonou os vagões. "Só o primeiro se acidentou, mas os funcionários tombaram os demais para não atrapalhar o tráfego da ferrovia. Resolveram o problema deles, mas criaram um outro para o bairro", avalia Aparecida.Nas comunidades, as composições viraram "parque de diversão" da garotada durante o dia. À noite, elas são ocupadas por assaltantes, usuários de drogas e casais fazendo sexo, de acordo com os moradores. Os casos de violência têm aumentado. Um fiscal de ônibus já foi assaltado por um homem que estava escondido em um vagão. "Volto do trabalho às 2 da manhã e estou com medo de passar por aqui", afirmou o gerente de vendas Gervásio Araújo, de 60 anos.A cerca de sete quilômetros de distância, estão mais cinco vagões que tombaram com soja há quatro meses. Em frente do Parque Estadual da Várzea de Embu-Guaçu, estão outros dez vagões abandonados. "Além da feiúra, compromete a segurança das pessoas", reclama Thales Schmidt, que foi gestor do parque.JUSTIFICATIVAA ALL informou que, ao assumir a ferrovia em junho do ano passado, elaborou um plano para a retirada dos vagões deixados pela antecessora. Na época, existiam 150 vagões no trecho que vai do Alto Taquari a Santos. Agora, são 60.A companhia afirmou também que a expectativa era ter retirado todas as composições em outubro, mas o cronograma sofreu atraso por causa da safra do milho. Retirar o material demanda interrupções na via. A ALL nega as críticas dos moradores sobre aumento no número de vagões abandonados e garante que tem reduzido o índice de acidentes - quando a empresa assumiu o sistema, diz que a média era de 170 a cada milhão de trem por quilômetros rodados. Hoje, são 40.A ALL disse ainda que nunca recebeu reclamação de moradores. A empresa atende no escritório que fica no bairro do Cipó, em Embu-Guaçu.

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