ABC é a ''''porta de entrada'''' dos temporais na Grande SP

Já virou quase um clichê - toda vez que São Paulo é castigada por chuvas fortes, o km 13 da Via Anchieta aparece no noticiário. Ali, na divisa entre São Paulo, São Bernardo e São Caetano do Sul, tempestade e enchente são duas palavras que sempre andam acompanhadas. A explicação, no entanto, passa longe do simples azar. A área, de topografia acidentada, sofre com a influência dos ventos do litoral, com o aumento da impermeabilização do solo e com a própria umidade do ar, ainda mais elevada por causa da evaporação das águas da Represa Billings."Por causa da topografia mais alta, o vento que vem do litoral tende a subir", explica Aline Tochio, meteorologista do Climatempo. As nuvens de chuva se formam normalmente quando massas de ar que estão com alta umidade relativa sofrem resfriamento - na atmosfera, isso se dá normalmente pela elevação da massa de ar. "O movimento ascendente resfria o vento do litoral, e o ar perde a capacidade de conter umidade. Por isso surge a chuva. A umidade do ar na região também é alta por causa da represa, o que só complica a equação."O resultado aparece nos números. Enquanto choveu 21,7 milímetros em toda a cidade na noite de anteontem, esse índice triplica se for levado em conta só a região em torno do quilômetro 13 da Anchieta. "Das 18h15 às 19h15, choveu 66,3 mm ali", conta Augusto José Pereira Filho, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto Astronômico Geofísico da Universidade de São Paulo. "Isso é muita coisa, é um terço do que chove em todo o mês de fevereiro. Quando chove 40 mm já esperamos problemas, imagine então 66,3."Pereira Filho afirma que as enchentes têm uma razão muito mais prática do que a formação de nuvens . "O vento do litoral tem grande influência, são as chuvas de verão que se formam justamente na borda do município de São Paulo", diz. "Mas a urbanização e a falta de permeabilidade são cruciais. Em alguns pontos do interior, chove até mais. Mas lá a água tem para onde ir, aqui não."A zona leste da capital sofre com o mesmo problema. Em 1995, a Secretaria Municipal de Vias Públicas identificou a existência de 12 milhões de metros quadrados de áreas verdes. Em 1999, estudo do Departamento de Águas e Energia Elétrica mostrou que essa área havia sido reduzida pela metade.

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

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