Aberta sindicância para apurar corrupção em Bangu

O diretor do Departamento do Sistema Penitenciário (Desipe), major Hugo Freire, determinou, nesta segunda-feira, a abertura de uma sindicância para apurar as denúncias de corrupção de agentes do Complexo de Bangu publicadas no Estado. ?Mandei abrir uma sindicância a esse respeito e já estamos investigando as denúncias?, disse o major.O secretário de Justiça, Paulo Saboya, admitiu que ?o que se afirmou (na matéria) é a verdade?. Segundo ele, ?todos os procedimentos do Desipe serão redimensionados e reestruturados? a partir desta semana. ?Estamos revendo humildemente as nossas posturas, e isso vai entrar em vigor agora. O que nós fizemos em sete meses, poucos governos fizeram?, disse Saboya.TabelaNesta segunda-feira, foi publicada uma tabela com os preços cobrados por agentes, de acordo com o relato de parentes de presos, para permitir a entrada de drogas, celulares, ventiladores e bebidas alcoólicas, visitas íntimas fora do horário e vários outros ?serviços?, como o ingresso de prostitutas nos presídios.Bangu 4O presídio Bangu 4, dominado pela facção criminosa Terceiro Comando e tido como um dos menos problemáticos do complexo, pode ser o próximo alvo de uma rebelião armada. Agentes do Desipe que trabalham na unidade afirmaram ao Estado ter a informação de que há fuzis e pistolas no interior das galerias, provavelmente escondidos em paredes ? como aconteceu em Bangu 3, onde foram encontrados três fuzis e cinco pistolas após um motim no mês passado.Nos últimos quatro meses, houve seis levantes nesse conjunto de cadeias. ?Bangu 4 deve ser a próxima a estourar. Já recebemos denúncias de que há fuzis e pistolas lá dentro. Estamos só esperando chegar a nossa hora. O medo é muito grande, trabalhamos sob estresse constante?, disse um dos agentes.Na última sexta-feira, a equipe de segurança da vizinha Casa de Custódia Jorge Santana ficou nas mãos de criminosos, que mantiveram sete policiais militares reféns ? sob a mira de armas e amarrados a botijões de gás ? por dez horas.ConivênciaDois funcionários do presídio admitiram que existe de fato a conivência de alguns de seus colegas para permitir a entrada de drogas, televisores e outros utensílios para os presos mediante pagamento de propina. Os dois foram enfáticos, no entanto, em afirmar que o código de ética dos agentes segrega os que levam armas para os detentos.?Uma pistola na mão deles coloca todos nós em risco, e isso ninguém admite. Não há nenhum corporativismo nesses casos. Quando alguém sabe, denuncia, porque não tem perdão: já vi agente apanhar na cara de outro colega por causa disso?, conta um deles. Segundo ele, só são toleradas as ?ações de polícia? ? como extorsões e cobrança de dinheiro por ?favores?, que oneram os detentos.As ?de bandido? são aquelas em que os agentes compactuam e funcionam como cúmplices dos criminosos, como na venda de armas para presos, por exemplo. ?Na hora da rebelião eles não respeitam ninguém, não adianta nada você tratá-los com consideração; vira refém do mesmo jeito e pode morrer?, explica outro agente, de 30 anos, que toma diariamente remédios para controlar uma hipertensão iniciada depois que entrou para o Desipe, há seis anos.CriatividadeÉ o que temem ambos, diante da notícia de que há armas dentro da unidade. Segundo eles, é quase impossível encontrar os artefatos nas incontáveis paredes de concreto da unidade. É a habilidade dos presos em ?camuflar? armas em remendos nas paredes, conhecidos como ?cafofos?, que dificulta essa tarefa.?Tem muito interno que é pedreiro. Eles são criativos e conseguem fazer buracos que cobrem com massa feita com papel de jornal, caixas de ovos derretidas, cola. Fica igualzinho à parede, não dá para notar a diferença. Na hora em que precisam, vão lá e quebram com facilidade.?Segundo os agentes do Desipe, é praticamente impossível verificar todas as paredes e muros para identificar onde há fundos falsos. ?Isso é uma espécie de habeas corpus preventivo. Eu recebo ameaças como essa diariamente?, disse Saboya.Autuação por negligênciaDois policiais militares que trabalhavam na Casa de Custódia Jorge Santana, em Bangu, onde acorreu o motim da última sexta-feira, foram autuados por negligência e desrespeito às normas internas de segurança. Dos 17 policiais que trabalhavam no local, onze já foram ouvidos.Durante uma vistoria de rotina, agentes penitenciários encontraram nesta segunda à tarde uma espingarda dentro de um caminhão que levava sacos de farinha para a padaria da penitenciária Lemos de Brito, no Complexo Penitenciário Frei Caneca, no Centro.

Agencia Estado,

04 de novembro de 2002 | 18h35

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