Aborto marcou a agenda Brasil-Santa Sé

Papa deixou claro, nos contatos com o governo, que não queria ver o maior pais católico do mundo aprovando a medida

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2010 | 00h00

A relação entre o papa Bento XVI e o governo brasileiro nos últimos anos foi marcada pelas diferenças em torno da questão do aborto. Em diversas reuniões com bispos brasileiros, em encontros com embaixadores do País e mesmo com ministros, o Vaticano deixou claro que não quer ver o maior país católico do mundo aprovando leis que autorizariam o aborto.

Há um ano, Bento XVI se reuniu com o embaixador do Brasil perante a Santa Sé, Luis Felipe de Seixas Corrêa, e pediu que a proibição ao aborto, à eutanásia e às pesquisas com células-tronco embrionárias fosse mantida.

Ele apelou para que o governo "fomente os valores humanos fundamentais, a família e a proteção do ser humano desde o momento de sua concepção até a morte natural" e exigiu "respeito nos experimentos biológicos".

Mas um dos momentos de maior tensão ocorreu durante a visita do papa ao Brasil, em 2007. A polêmica foi lançada já no próprio voo entre Roma e São Paulo. Ele disse que deputados, senadores e políticos que votassem a favor de uma proposta de lei do aborto estariam se autoexcluindo da comunidade católica. Para o pontífice, apoiar tal lei é sinal de "egoísmo".

Excomunhão. Voando a 11 mil metros sobre o Saara, o papa deixou seus aposentos no avião para conversar com os jornalistas. Ao responder a uma questão relativa à decisão de bispos no México de declarar que os deputados que votaram por uma lei a favor do aborto seriam automaticamente excomungados, o papa deu claros sinais de apoio à decisão e ainda apontou para o Brasil.

"Essas excomunhões não são arbitrárias, mas previstas no Código (Canônico). O direito de matar um inocente, uma criança humana, é incompatível com estar em comunhão com o corpo de Cristo. Em suma, não foi feito nada de novo, de surpreendente. Eles (bispos mexicanos) apenas revelaram e declararam publicamente algo que é previsto pelo direito da Igreja."

Alguns anos mais tarde, a cúpula do Vaticano saiu em defesa da excomunhão dos médicos que realizaram um aborto de gêmeos em uma menina de 9 anos, que havia sido estuprada por seu padrasto em Pernambuco. O presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, cardeal Giovanni Battista Re, alegou que a excomunhão dos médicos foi "justa", mesmo que a interrupção da gravidez tenha sido um ato legal.

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