Abrigo no Rio atende crianças viciadas

Serviço oferece acompanhamento psiquiátrico e é pioneiro na cidade

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

Lucas (nome fictício, como os dos outros meninos desta reportagem), de 13 anos, sabe exatamente o que fez no primeiro dia em que saiu de casa, em Madureira, na zona norte do Rio, aos 9 anos: fumou crack. Fugia das surras que levava da mãe. "Não teve nada de bom na minha vida. Minha mãe queimou minha mão no fogão, abriu minha cabeça com soquete, já jogaram pedra na minha cabeça quando eu estava dormindo na rua."Desde 5 de abril, o menino mora na Casa Viva, serviço pioneiro da prefeitura do Rio que atende crianças de 8 a 12 anos dependentes químicas. O projeto funciona numa ala de um abrigo convencional, na zona norte, que, por medida de segurança, não tem o endereço revelado. A diferença é que na Casa as crianças têm acompanhamento psiquiátrico com medicação, passam por desintoxicação, musicoterapia e os chamados encontros terapêuticos - reunião entre a criança e dois técnicos.Não havia um método de atendimento estabelecido para essas crianças dependentes. "Estamos testando. O crack fica no corpo por muito tempo, mas elas saem da fase mais crítica da fissura com maior rapidez do que a gente imaginava", diz Sandra Celano, coordenadora técnica da instituição. "Apostamos muito no que chamamos de maternagem, uma técnica de aproximação pelo carinho. Damos colo a esses meninos. Eles são muito carentes."Em seis meses de funcionamento, 20 crianças passaram por ali - 19 meninos e uma menina. Desde outubro, apenas um menino recebeu alta e foi encaminhado para outro abrigo. Cinco estão em tratamento. As fugas são constantes. "A gente levanta a hipótese de que não é só por causa da droga. A rua tem uma magia especial para eles, além das amizades. Talvez pudéssemos transformar a Casa num ambiente mais interessante", diz Sandra.Um dos fugitivos é Felipe, de 10 anos, que desde os 7 usa tíner e não sabe dizer há quanto tempo fuma crack. Ele já estava em tratamento havia 134 dias, quando escapou. Foi encontrado dormindo num lixão, na "cracolândia" do Jacarezinho, na zona norte. Outro que estava na "cracolândia" do Jacarezinho é Alex, de 12 anos. No dia 8, dormia na rua, quando acordou cercado por policiais. Era uma operação da Secretaria de Ordem Pública para reprimir a "cracolândia". "Me acordaram e me botaram na van. Vim pro abrigo. Comecei a fazer escândalo", conta o menino que, pela primeira vez em dois anos, não usa nenhuma droga.Sandra também questiona os métodos de abordagem. Dos seis encaminhados para a Casa Viva na operação de 8 de abril, quatro fugiram. "Fui até a delegacia conversar, mostrar que os meninos seriam bem recebidos. É preciso outro tipo de abordagem", diz a coordenadora. FRASESSandra CelanoCoordenadora técnica da Casa Viva"O crack fica no corpo por muito tempo, mas elas saem da fase mais crítica da fissura com maior rapidez do que a gente imaginava""Damos colo a esses meninos. Eles são muito carentes"

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