Abuso contra criança em casa é mais freqüente

Sevícias provocam transtornos e podem levar ao suicídio; na vida adulta se traduz em uso de álcool e drogas

Clarissa Thomé e Pedro Dantas, de O Estado de S. Paulo,

26 de novembro de 2008 | 00h05

O Ministério da Saúde vai distribuir três mil cartilhas sobre o impacto da violência na saúde das crianças e adolescentes durante o 3.º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que reúne três mil pessoas de 140 países no Rio, até sexta-feira. O documento trata das estatísticas sobre as agressões e orienta sobre como agir em caso de abusos. Veja também: Íntegra da cartilha sobre o impacto da violência "A cartilha é um alerta que o Ministério da Saúde faz para a situação de violência que está sendo cometida contra crianças e adolescentes no Brasil. A cartilha chama a atenção para o crime sexual, para abusos inaceitáveis que são cometidos contra as crianças", afirmou a coordenadora de Saúde do Adolescente do Ministério da Saúde, Thereza Delamare. O documento aponta para as conseqüências da violência sobre o desenvolvimento dos jovens - ansiedade, transtornos depressivos, alucinações, baixo desempenho na escola e tarefas de casa, alterações de memória, comportamento agressivo, violento e até tentativas de suicídio. Na vida adulta, o abuso na infância e adolescente se traduz em uso excessivo de álcool e drogas. "A violência é um grande problema de saúde. A criança que sofre abuso constante terá impactos importantes na saúde mensal, que trarão prejuízos para a sua vida adulta", diz Thereza. O material foi produzido a partir de dados coletados em 2006 e 2007, pelo Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), com informações obtidas nas fichas de notificação de violência doméstica, sexual e outras violências. Desde 2006, institutições de referência de 27 capitais alimentam o Viva. Dos 1.939 registros de violência contra crianças de até 9 anos, 845 (44%) foram por violências sexuais. Entre os adolescentes (10 a 19 anos), esse tipo de ocorrência correspondeu a 1.335 (56%) dos 2.370 casos notificados.  "Muitas vezes esses registros são de crianças e adolescentes submetidos à exploração sexual. Eles saem das suas casas, caem numa rede de exploração e sofrem uma violência brutal", comentou Thereza. Após o congresso, as cartilhas serão distribuídas em unidades de saúde, escolas e conselhos tutelares. Thereza ressalta que na maioria dos casos a violência contra crianças e adolescentes é "invisível". A residência foi o local em que houve 58% dos episódios de violência sexual contra crianças e adolescentes. Os adolescentes também sofreram abusos na rua (20% dos casos). Já entre as crianças, as agressões sexuais ocorreram em unidades de saúde em 9% dos registros. "Quando a criança e o adolescente apontam que a residência foi o local da violência, elas dizem que o crime foi cometido por pessoa próxima. A violência intrafamiliar é um desafio para toda a sociedade, ela é invisível. Hoje temos bons mecanismos proteção da criança e adolescente, como Disque 100 e conselhos tutelares, e precisamos usá-los para evitar essa barbárie contra crianças e adolescentes", afirmou. Congresso O 3.º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes dá voz, pela primeira vez, aos maiores interessados - os jovens. Ao contrário dos eventos anteriores, quando os adolescentes participaram de reuniões paralelas e em pequeno número, no encontro do Rio eles são quase 300 e com direito a opinar em todos os painéis e oficinas, que começam nesta quarta-feira. Na terça-feira, esses jovens se reuniram no Hotel Windsor, na Barra da Tijuca, para trocar experiências. Muitos deles passaram por algum tipo de exploração. Por isso, há todo um protocolo para que concedam entrevistas - precisam estar acompanhados de um tutor, não respondem a perguntas pessoais e alguns não podem ser identificados pelo nome. A semelhança entre a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil e na Tailândia impressionou a comitiva de jovens do país asiático. "Assim como no Brasil, temos problemas com os nossos cidadãos tailandeses, mas o maior desafio são os turistas europeus e norte-americanos. Eles vão à Pattaya em busca de sexo por dinheiro com adolescentes", aponta o jovem de P., de 16 anos, que atua como voluntário no balenário que é um dos centros da prostituição infantil no país.  Voluntário há um ano de uma ONG, o trabalho de P. envolve casas de acolhimento, grupos de apoio, treinamento e abordagem de jovens. "Tirei apenas uma colega da prostituição, mas foi uma vitória enorme porque eu salvei a vida de uma grande amiga", contou.

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