DIEGO HERCULANO/ESTADÃO
DIEGO HERCULANO/ESTADÃO

Abuso sexual infantil expõe necessidade de escola e assistência na rede de proteção; leia análise

'As vítimas têm mais chances de se envolver com álcool e drogas e de desenvolver problemas psicológicos. Não é à toa que os dados mostram que elas estão fumando mais e bebendo mais'

Fátima Marinho*, especial para o Estadão

10 de setembro de 2021 | 19h01

Os abusos sexuais sofridos por adolescentes no Brasil não estão recebendo a devida importância que merecem. O resultado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) divulgado nesta sexta-feira, 10, mostra que nossos jovens estão vivendo sob uma ameaça enorme, sofrendo uma quantidade alta de violência sexual. É impressionante que a sociedade aceite conviver com isso.

A pressão acaba caindo mais sobre as meninas, que são as maiores vítimas até mesmo entre as crianças pequenas. Elas já crescem em um ambiente de abuso porque, como mostrou o IBGE, apenas 20% dos casos de violência sexual são cometidos por desconhecidos. É o conhecido que agride sexualmente a criança e não um desconhecido.

As vítimas de abuso sexual têm mais chances de se envolver com álcool e drogas e de desenvolver problemas psicológicos. Não é à toa que os dados mostram que elas estão fumando mais e bebendo mais. Elas também podem ficar mais agressivas ou se tornarem crianças retraídas, que interagem pouco, deprimidas. O comportamento muda.

Observamos também que a violência sexual contra as meninas está em toda parte. O IBGE mostra que houve mais relatos de violências do tipo em adolescentes que estudam em escolas privadas (16,3%) do que nas públicas (14,4%). É uma perversidade que não depende do nível socioeconômico. Ela é universal e, por ser universal, a gente acaba aceitando conviver com ela. Quem não sabe de algum caso e fechou o olho porque conhece o agressor?

Essa pesquisa é interessante porque revela uma parte de problemas que existem, mas estão invisíveis. A criança responde a pergunta em um smartphone, não precisa falar, e isso dá uma visibilidade que a gente não consegue ter se olhar apenas para os casos que chegam à polícia ou aos serviços de saúde.

Para enfrentar a violência sexual, precisamos da escola. Ela é uma peça-chave no processo porque é onde essas meninas estão. É fundamental que elas tenham aulas de educação sexual para que conheçam seu próprio corpo, saibam onde podem ser tocadas e onde não podem. Isso é essencial para que elas possam se defender. A equipe escolar precisa estar atenta aos sinais que a criança dá e deve estar próxima da família.

A área da saúde, especialmente da saúde da família, também precisa olhar para essas crianças. Mais que isso, precisamos de políticas voltadas à proteção delas porque estamos falhando nisso. Quantas vezes a criança chega com marcas de violência e retorna para casa porque não há um lugar que a acolha? Faltam recursos para  a assistência social.

Com a pandemia, a violência sexual infantil tende a aumentar. Se a maior parte da violência ocorre dentro de casa ou na vizinhança, à medida que a criança fica mais tempo em casa, ela também está mais exposta. É preciso estar atento para identificar as mudanças de comportamento das crianças. Ela não é mais a mesma depois de uma violência.

Por fim, precisamos observar o que está por trás do agressor. Muitas vezes um menino apresenta comportamento violento porque na casa dele há adultos com comportamentos similares e ele aprende. Já o adulto agressor de hoje pode ter sido abusado na infância. Um agressor não nasce do nada, ele também tem uma história.

*Assessora Técnica Sênior da Vital Strategies e Professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

 

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