Acabou o pingado com pão na chapa

Fim da linha para rodoviária de Campinas

Mônica Manir, CAMPINAS, O Estadao de S.Paulo

23 de junho de 2008 | 00h00

Enquanto serve mais um café de coador, o carro-chefe do negócio, seu Luis se lembra da vida. Sim, pois foi uma vida madura, de 35 anos, que ele passou dentro da Estação Rodoviária Dr. Barbosa de Barros, antiga rodoviária de Campinas, que à meia-noite de sábado encerrou suas atividades para à meia-noite e um minuto de domingo dar lugar à nova rodoviária da cidade.Luis Fernando Pontes de Almeida estava de corpo presente no dia em que o primeiro ônibus da Cometa apontou em uma das 12 plataformas, em 1973. "A rodoviária era o maior show", diz. Pagando 10 salários mínimos de aluguel à dona do prédio, a Maternidade de Campinas, ele oferecia, além do café de coador, a tradicional dupla pingado-e-pão-com-manteiga à população que chegava amarfanhada de todos os Estados do Brasil à cidade de 250 mil habitantes, que galopava como promessa do interior. "Dei meu sangue a esse lugar, literalmente, e agora tiram minha enxada."O sangue veio do assalto que sofreu na rodoviária em 2003. O tiro atravessou-lhe os pulmões, mas desviou das artérias. Seu Luis foi socorrido no ambulatório da rodoviária e depois transferido para o hospital. "Por Deus a bala pegou em mim, porque havia umas 2 mil pessoas por ali", raciocina, como se tivesse o corpo fechado. Seu empreendimento aparentemente não se encaixa no perfil da nova rodoviária, já que, como quase todos os 21 lojistas da antiga, ele não se moverá para lá. A promessa de transferência feita pela prefeitura virou água, e ontem seu Luis encaixotava a chapa e a máquina de suco. O esqueleto da cafeteria, que tirava 800 xícaras por dia, ficaria por ali. O corpo fechado de seu Luis levou um baque. Depois de acudir um senhor de 65 anos que exibia um corte profundo no supercílio, resultado de queda na plataforma, a enfermeira Tania Mara de Silveira voltou ao ambulatório, o mesmo que acudiu seu Luis. Ela mostra o desfibrilador portátil novinho e a desilusão de quem perde o emprego após oito anos de casa. Está entre os 130 funcionários demitidos a partir de hoje. Pelo ambulatório passavam 450 pessoas por mês, vítimas de síndrome do pânico, hipertensão ou um tropeço que esfolava a pele. Tania abraça uma servente de limpeza, Josefa Pereira de Souza, que se emociona com a última varrida de corredor. "Colega, isso era uma família para mim", afirma Josefa, que a todos inclui na coleguice.

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