Ação de lobista derruba número 2 da Agricultura

Milton Ortolan, secretário executivo, pediu demissão após evidências de que Júlio Fróes atuava em licitações da pasta comandada por Wagner Rossi

Célia Froufe e Eduardo Bresciani, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2011 | 00h00

A denúncia de um lobby que se havia instalado dentro do Ministério da Agricultura, para negociar contratos e licitações, derrubou ontem o secretário executivo do ministério, Milton Ortolan. Auxiliar direto do ministro Wagner Rossi (PMDB- SP), Ortolan, segundo homem da área, pediu demissão após a divulgação, pela revista Veja, de reportagem com fotos e detalhes da atividade que o lobista Júlio Fróes exercia em salas próximas à do ministro.

"Informo que apresentei ao ministro, nesta data, meu pedido de demissão, em caráter irrevogável, do cargo de secretário executivo do Ministério da Agricultura", escreveu Ortolan em nota divulgada pelo Ministério da Agricultura na internet.

Em outro nota também divulgada ontem, o próprio ministro nega qualquer ligação com os episódios denunciados e diz estar encaminhando um pedido de investigação à Controladoria-Geral da União (CGU). "Repudio as informações constantes da reportagem", afirmou Rossi.

Reuniões. Segundo a denúncia, o lobista Júlio Fróes, conhecido como "Doutor Julinho", dispunha de acesso direto ao Ministério da Agricultura e trabalhava em uma sala com telefone, computador e secretária. Ali, fazia contatos e atuava em processos de licitação, editais e escolha de empresas para os mais diversos contratos da pasta.

No ano passado, diz a revista, Fróes utilizou a sala para redigir um documento para contratação da Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da PUC de São Paulo. O presidente da Fundasp é o próprio Fróes. O ministro Rossi teria aprovado rapidamente a contratação, no valor de R$ 9 milhões.

Em outra ocasião, o lobista teria reunido pessoas que com ele trabalharam nesse contrato, numa sala no 8º andar do ministério, para distribuir pastas nas quais, segundo relatos de alguns presentes, haveria dinheiro.

Um terceiro episódio relatado pela revista foi um encontro de Fróes com representantes da Gráfica Brasil, dos quais teria pedido 10% do valor de um contrato com a Agricultura, para renová-lo. A gráfica teria recusado. Na reportagem aparecem ainda advogados da Spam, uma empresa que está há tempos tentando receber do ministério uma dívida de R$ 150 milhões. Funcionários da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) teriam pedido 15% do valor devido para liberar o dinheiro - e a Spam teria também recusado.

No site do ministério há uma nota, também de ontem à tarde, dando a versão do ministro sobre o contrato com a Fundasp. O convênio é para a capacitação de 12 mil servidores. Segundo informa o ministério, até julho deste ano foram atendidos 6.560 funcionários da pasta e a Fundação já recebeu R$ 5,2 milhões.

"Consciência tranquila". Em sua nota de demissão, Milton Ortolan diz ter conhecido Júlio Fróes no processo de contratação da PUC. "(Fróes) Chegou a mim como sendo um representante da PUC-SP", argumentou o agora ex-secretário executivo. Ele disse desconhecer a reunião citada pela revista, na qual teria sido distribuída propina.

"Não participei e nem compactuo com ilegalidades. Tenho 40 anos de serviço público. Jamais fui acusado de conduta irregular", alegou. Por fim, defendeu investigações "em todos os níveis" e se pôs à disposição para prestar esclarecimentos. "Tenho a consciência tranquila e provarei minha inocência", finalizou o ex-secretário.

Apesar das negativas dos envolvidos, a reportagem traz uma sequência de fotos - que a revista diz ter feito na quarta-feira - que mostram Fróes chegando ao Ministério da Agricultura, depois saindo e dirigindo-se ao Congresso para ouvir o depoimento do ministro Wagner Rossi na Câmara dos Deputados.

Paulista de Americana, Milton Elias Ortolan foi chefe de gabinete do ministro até maio passado, quando assumiu a Secretaria Executiva do ministério. Em sua carreira de quase 40 anos na vida pública, foi secretário da Educação de Americana, ocupou secretarias do governo paulista e tem passagens pelo Ministério dos Transportes e pela Embratur.

Agressão. De acordo com a revista Veja, o jornalista Rodrigo Rangel foi agredido por Fróes durante o trabalho de apuração da reportagem. Ele se encontrou com o lobista em um bar de Brasília para ouvir suas explicações. Segundo a publicação, ao ser confrontado com as evidências, Júlio Fróes fez várias ameaças e chegou a perguntar ao jornalista se ele tinha mulher e filhos. O editor deu então a entrevista por encerrada, mas, ao se levantar, foi puxado pelo braço e atacado com joelhadas na barriga e no corpo, tendo um dente quebrado pelo agressor. Fróes fugiu rapidamente do bar, e Rangel foi à delegacia registrar a ocorrência.

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