''Achem logo o Kleber, ele vai matar a neném''

Mãe admite que, pouco antes da tragédia, discutiu com sequestrador

Leonencio Nossa, GOIÂNIA, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

A Polícia Civil de Goiás vai ouvir na terça-feira Erica Barbosa, de 23 anos, sobre os possíveis motivos que levaram o companheiro dela, Kleber Barbosa da Silva, de 31 anos, a agredi-la com um extintor de incêndio, sequestrar a filha do casal, Penélope, de 5 anos, e roubar um avião bimotor na tarde de quinta-feira, em Luziânia. Pai e filha morreram na queda da aeronave, horas depois, no estacionamento de um shopping center de Goiânia. Sob efeitos de sedativos e ainda se recuperando da agressão, Erica adiantou para familiares que no dia da tragédia teve uma discussão com Kleber. Logo que foi socorrida, avisou que a filha corria perigo. "Achem logo o Kleber, ele vai matar a neném", disse, segundo relato da amiga Valquíria Nascimento.Na manhã de ontem, ainda de cama, a mãe de Penélope leu notícias do acidente e ficou abalada quando soube que a Polícia Civil investiga a denúncia de que Silva teria estuprado uma adolescente de 13 anos na segunda-feira. "Eles eram apaixonados", relata Valquíria. "É um momento desesperador para ela, que aos poucos está conhecendo o homem com quem viveu durante seis anos."Na quinta-feira, depois do casal passar dois dias em Caldas Novas, a 170 km de Goiânia, Silva pediu para a mulher faltar mais um dia aos estudos. "Ele pediu para Erica acompanhá-lo numa viagem para Anápolis", disse Valquíria. Erica não teria dado detalhes da suposta discussão. Contou apenas que Penélope assistiu à agressão ocorrida logo em seguida. ?FRUSTRADO?O delegado Manoel Borges, da 8ª DP de Goiânia, considera que a denúncia de estupro pode ter contribuído para que Silva cometesse a sequência de crimes no dia 12. "Ele era um homem frustrado", afirmou, com base em conversas informais com parentes do sequestrador. O delegado destacou que Silva estava desempregado, vivia com a ajuda financeira da mãe que mora na Espanha e se sentia frustrado por não realizar o sonho de seguir carreira na aviação. Uma das pessoas que serão ouvidas pelo delegado na próxima semana é Ronaldo Barbosa, tio do sequestrador. Foi ele quem passou para o sobrinho o gosto por aviões. Quando era criança, Silva ganhou do tio o primeiro aeromodelo. Juntos, os dois participaram de campeonatos regionais. O hobby era uma forma, segundo o próprio Ronaldo, de eles compensarem a frustração de não seguirem carreira de piloto comercial. "Meu tio Raimundo Barbosa era piloto de bimotores em Tocantins e me incentivou a gostar de aviões", contou. "O máximo que Kleber também conseguiu foi se formar em piloto de aeromodelos."O técnico em eletrônica afirma que Silva se acomodou com o dinheiro mensal que recebia da mãe, Vandilma, que vive e trabalha numa quitanda na Espanha. "Em vez de pagar curso de piloto, o Kleber gastava o dinheiro comprando carro."Ronaldo não acredita, porém, que os problemas familiares tenham levado o sobrinho a se suicidar e a planejar a morte da filha. "Para mim, o avião caiu porque acabou o combustível, tanto que não houve explosão", ressalta. O delegado Borges, que planeja fazer uma reconstituição do voo, disse que havia cheiro de combustível no local do acidente. Um tio de Erica, o policial Adão Mota, relatou ter falado por telefone com Silva antes da tragédia. Na conversa, o rapaz teria deixado claro que ia se matar. FRASESValquíria NascimentoAmiga (após Erica saber da denúncia por estupro que recaía sobre Silva)"Eles eram apaixonados. É um momento desesperador para ela, que aos poucos está conhecendo o homem com quem viveu durante seis anos"Ronaldo BarbosaTio de Silva"Em vez de pagar curso de piloto, o Kleber gastava o dinheiro comprando carro"''Uma briga com a mulher não é motivo para ele se matar e matar a Penélope. Para mim, o avião caiu porque acabou o combustível, tanto que não houve explosão"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.