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REUTERS/Diego Vara
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'Ações do Carrefour para promover igualdade não foram suficientes para evitar tragédia'

O coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, Raphael Vicente, fala expulsão da empresa do grupo, que reúne 70 companhias; ele afirma que maior desafio é fazer com que negros assumam altos cargos nas empresas

Entrevista com

Raphael Vicente, advogado e coordenador-geral da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 11h00

A Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, com mais de 70 empresas signatárias, retirou o Carrefour do projeto depois do assassinato de João Alberto Silveira Freitas em uma loja do grupo em Porto Alegre. O advogado Raphael Vicente, coordenador-geral da entidade, afirma que a varejista não tomou ações suficientes para evitar o ocorrido.

Na entrevista ao Estadão, Vicente, também coordenador da Faculdade Zumbi dos Palmares, afirma que o número de líderes negros em grandes empresas ainda é pequeno e discorda das declarações de membros do governo que afirmam não existir racismo no Brasil.

Por que o Carrefour foi retirado da iniciativa?

A gente está diante de um fato extremamente grave e de algo que já foi dito e debatido pelo Carrefour, que é a recorrência dos fatos. Diante da forma do ocorrido, a gente não tinha outra opção senão desligar nosso membro signatário. Ser membro signatário da Iniciativa é se comprometer publicamente e por escrito com nossos dez compromissos pela promoção da igualdade racial. O Carrefour é um dos nossos membros mais antigos, mas ainda assim as ações não foram suficientes para evitar uma tragédia como essa.

O caso de Porto Alegre causou protestos contra o Carrefour pelo Brasil. Isso mostra que a sociedade também está cobrando diversidade das empresas?

Isso mostra que as coisas estão mudando. Aliás, a gente nem pode dizer que as coisas estão mudando com certa velocidade, porque essa já é uma questão antiga no Brasil. As empresas que demoraram pra perceber isso. O Estado brasileiro caminhou muito mais rápido que as empresas. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal julgou a constitucionalidade das cotas raciais, mas esse é um movimento que começa nos anos 2000, quando o Estado brasileiro assina a declaração de Durban reconhecendo o flagelo do racismo. Há vários recortes que mostram que essa não é uma discussão nova, mas que demorou muito pra chegar nas instâncias de liderança.

Como surgiu a ideia de criar esse movimento?

Foi fundada em novembro de 2015. A gente percebeu que nos últimos 20, 25 anos, o número de negros no ensino superior quadruplicou. Isso não se refletiu nos números das grandes empresas. Uma das grandes questões era a seguinte: “não contrato negros porque não tem negro no ensino superior”. Mas passou a ter negros no ensino superior e mesmo assim eles não foram contratados. A gente precisava, de uma vez por todas, discutir o tema e precisávamos de uma resposta do tamanho do País. Precisava-se de uma frente de trabalho. Com o quê que a gente vai trabalhar? Mercado de trabalho. Qual o recorte? Grandes empresas. Por quê? Porque elas têm uma cadeia de valor enorme. Se a gente construir com as novas empresas um novo pensar, uma nova cultura e novas políticas a partir da premissa de que a inclusão e diversidade são valores que precisam estar no "core" da empresa, a gente vai conseguir mexer. Fizemos alguns convites para empresas que eram próximas da Faculdade Zumbi dos Palmares e fomos crescendo. Hoje chegamos a 70 instituições comprometidas com esse tema.

Qual o maior desafio do movimento ao combater o racismo nas empresas?

Tudo que se relaciona ao racismo é um desafio grande. Fechamos um ciclo e fechamos o índice de igualdade racial nas empresas. Esse índice começou em 2018 e esse ano chegamos em uma metodologia robusta. Quando a gente olha pro índice como um todo, a gente consegue perceber o movimento que as empresas estão fazendo. A despeito de tudo que as empresas estão fazendo, um dos maiores desafios é justamente a questão da ascensão dos profissionais negros.

Houve avanços nos últimos anos?

Não resolveu, mas houve avanços. Caminhamos bem. Os lançamentos dos grandes programas de contratação de estagiários e de trainees (para negros) são todos de empresas signatárias: Natura, Ambev e Magazine Luiza. Estamos discutindo isso desde 2015. Alías, foi a partir daí que trouxemos Ministério Público e Justiça do Trabalho para discutir o tema. Quando a gente fala em inclusão e diversidade, as empresas pensam em recrutamento e seleção. Mas essas empresas são grandes compradores e elas podem comprar de empreendedores negros. A gente tem todo esse arco.

Há dados sobre a taxa de empregabilidade dos negros nas empresas nacionais?

Há algo em torno de 26% de negros nas empresas, em média, e 6% na alta liderança. Há essa 'escadinha', começa com um número alto de estagiários, supervisor e quando chega em gerente estamos na casa dos 8%. Quando sobe mais um pouco, já desaparece. O racismo no Brasil é tão sofisticado que ele não precisa de leis e de placas, diferentemente do que foi nos Estados Unidos e na África do Sul. Ele é sutil na sua apresentação e tem resultados extremamente potentes. As maiores empresas americanas têm aproximadamente 9% de negros nos cargos de liderança. Mas lá os negros estão entre 14% e 16% da população. Eles estão muito mais próximos da representação (proporcional) dos Estados Unidos do que no Brasil, onde somos 56%. A gente tem um abismo e já existe uma ferramenta que vai nos ajudar a entender para onde estamos caminhando. Senão, a gente corre o risco de daqui a 25 anos estarmos na mesma página.

Como a iniciativa vê o posicionamento do governo Bolsonaro em relação ao combate ao racismo?

O governo Bolsonaro reflete parte do pensamento brasileiro de muito tempo. Tivemos um exemplo esta semana, quando ele diz que não existe racismo, ele está reverberando esse pensamento, que somos miscigenados e que aqui há uma democracia racial. É exatamente o racismo indireto, uma construção que nos embargou por tanto tempo de discutir e propor soluções. Vivemos em um apartheid social em 2020 e na luta pra desconstruir esse discurso (da democracia racial), que ainda é muito forte na sociedade brasileira. O negro não aparece no ensino oficial brasileiro. Ele aparece na figura do escravo e, a partir daí, não se diz mais nada.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que no Brasil não há racismo, e sim desigualdade. O que você achou dessa declaração?

Desde as décadas de 1930 e 1940 é exatamente esse o pensamento construído no Brasil, que o problema é social, econômico, nunca racial. Os dados demonstram que não é possível sustentar esse tipo de coisa. Quando São Paulo se transforma em um polo econômico, depois do ciclo do café, os negros não foram absorvidos, não conseguiram galgar postos. Ainda que o negro alcancasse postos e riquezas, ele continua acompanhado pelo estigma da cor da sua pele.  

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