'Acredito em sabotagem', diz Soninha

Frase da ex-vereadora no Twitter associando pane no Metrô ao PT criou série de ironias

Adriana Carranca / Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

"Revolta acumulada." Foi essa a justificativa de Soninha Francine (PPS), coordenadora da campanha de José Serra (PSDB) na internet, para uma série de acusações ontem, no Twitter, de que os problemas no Metrô de São Paulo seriam fruto de uma sabotagem do PT. Por volta das 13h, a ex-petista Soninha publicou em linguagem de internet no microblog: "Metrô de SPaulo tem problemas na proporção direta da proximidade com a eleição. Coincidência? #SABOTAGEM #valetudo #medo".

A reação também foi na proporção direta da gravidade de seu comentário. Em pouco tempo, internautas colocaram Soninha entre os tópicos mais comentados do dia, ironizando ou reprovando (e muito poucos endossando) suas suspeitas. "Fiquei um tempo afastada do Twitter, porque os debates viram baixaria na internet, principalmente quando entra futebol ou política", disse a ex-vereadora ao Estado.

Sua volta ao universo das opiniões em 140 caracteres foi motivada por "denúncias" de uma amiga, que achou "muito estranho ter problemas no metrô três vezes na mesma semana". Isso faz uns 20 dias. Soninha, então, passou a "prestar atenção" no assunto e a desconfiar. "Todo dia com problema? Pessoas passando mal, defeitos na ventilação, na escada rolante. Não é plausível. Todo mundo sabe que o Metrô de São Paulo é um dos melhores do mundo", argumentou, ofegante.

Soninha admite que há uma questão de superlotação no transporte público paulistano. E confessa que não apurou com a administração do Metrô ou com o governo do Estado se há de fato uma série de problemas técnicos acontecendo. Por isso, preferiu dividir a acusação de sabotagem em duas hipóteses: "ela acontece na origem do problema técnico ou na reação no Twitter ao problema. Eu acredito em sabotagem".

Sua crença é estendida a vários temas. Outra amiga contou que um remédio para o tratamento de hanseníase que sempre teve oferta garantida no Hospital das Clínicas "sumiu". "Coincidência?", questiona Soninha. Sua empregada comentou que, numa unidade de saúde, foi aconselhada a "não pegar remédio no posto que é que nem água, não funciona. Tem de comprar".

A gaiatice virtual não tem limites e, no meio da tarde, já havia sido criado o tópico "soninhafacts", em que internautas atribuíam à ex-apresentadora com um quê de riponga a autoria de novas "denúncias", do tipo "PT enviou milhões de pessoas a SP só para superlotar o metrô e sabotar os tucanos".

Mas Soninha diz não se arrepender da verborragia, "principalmente se isso servir para descobrir o que está acontecendo de fato". Ela jura que esse ataque ao PT foi um ato individual, desvinculado da campanha, e que no site de José Serra esse tipo de comentário é condenado. "Isso é coisa minha. Se alguém quiser, pode me processar."

Reação. Se a intenção era provocar a reação dos adversários, ao insinuar que os problemas no metrô teriam sido provocados por motivos políticos, pelo menos na esfera estadual o PT não mordeu a isca. O candidato petista ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante, preferiu fugir de polêmicas. "Tentar usar politicamente um episódio desse, que prejudicou tanta gente, é sinal de desespero", disse, sobre as declarações feitas via Twitter pela coordenadora da campanha de José Serra. "Não acredito que o episódio tenha qualquer relação com a disputa eleitoral."

Mercadante evitou também responsabilizar diretamente o governo tucano pelo incidente. Disse considerar o Metrô "eficiente" e que "acidentes acontecem". "Só não entendo como uma blusa presa numa porta ou um botão possa parar o sistema, que o problema em uma composição afete 18 estações numa linha que transporta 60 mil passageiros por hora e 1,6 milhão de passageiros por dia. Acho que falta preparo, prevenção e mais investimentos na segurança do sistema, mas temos de aguardar o diagnóstico para avaliar melhor o que aconteceu."

O coordenador da campanha do PT, Emídio de Souza, adotou o mesmo tom. "Não vamos tripudiar em cima de problemas. Isso soa a aproveitamento eleitoral. Nossa crítica é outra: a falta de expansão da rede e a lentidão do PSDB, principalmente na gestão Geraldo Alckmin, de construir novas linhas." Ontem, Mercadante repetiu a promessa de campanha para a área de transportes. "Se eleito, vou construir 30 quilômetros de metrô em quatro anos."

A equipe de marketing da campanha petista chegou a considerar o uso das imagens do caos na Linha Vermelha no horário eleitoral de Mercadante. Mas a orientação do candidato era para que aguardassem um diagnóstico do incidente. Comprovada a responsabilidade do governo de São Paulo sobre a pane no sistema, a campanha reavaliaria a estratégia.

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