Acuado, Cabral propõe criar código de conduta

Alvo do Ministério Público, governador do Rio diz que pretende instituir termos para disciplinar a relação entre Poder Executivo e empresários

Alfredo Junqueira / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

Doze dias após o acidente que expôs sua relações pessoais com os empresários Fernando Cavendish, dono da Delta Construções, e Eike Batista, da EBX, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), afirmou ontem que nunca misturou sua vida privada com suas funções públicas. Foram as primeiras declarações do peemedebista desde a queda do helicóptero que matou sete pessoas, há 10 dias, em Porto Seguro (BA). Cabral viajou num jato emprestado por Eike para participar dos festejos de aniversário de Cavendish.

Ontem, o Ministério Público Estadual do Rio anunciou a instauração de procedimento preparatório para investigar o caso.

Sem reconhecer qualquer conflito de interesse, o governador admitiu, no entanto, rever sua conduta. Em entrevista à rádio CBN, disse que pretende promover debate sobre o assunto. Na estratégia para dirimir os danos que o caso provocou em sua imagem, Cabral já acertou envio de projeto à Assembleia Legislativa (Alerj) para criar um Código de Conduta do Poder Executivo. O governador também preparou mensagens para conceder aumento salarial aos professores do Estado, que estão em greve, e equiparar funcionários do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), que cuida de menores infratores, aos servidores da Secretaria de Estado de Segurança.

"Minha vida privada é uma coisa, minha vida pública é outra. E eu nunca misturei isso. No caso da Delta, como de outras empresas, o que vem acontecendo no Rio de Janeiro é um crescimento econômico e um volume de obras que aumentou muito no nosso governo", alegou Cabral. "É um absurdo querer vincular qualquer elo de amizade entre mim e o Fernando, que é anterior ao meu mandato, com o crescimento da empresa", disse.

Sem culpa. Em nenhum momento, Cabral admitiu erro ao participar de festejos de empresários ou aceitar caronas em jatos. Limitou-se a analisar a legislação federal que estabelece o código de ética do funcionalismo e comparar como as regras são estabelecidas em outros Estados.

"Quero assumir aqui um compromisso de rever a minha conduta. A imprensa é o espaço para o debate público. Vamos construir um código juntos, vamos estabelecer os limites", disse o governador. "Tem um código nacional que, se não me engano, foi feito no final do governo do Fernando Henrique Cardoso, em 2002. Deve ter estados que têm. Eu adoro direito comparado. Vamos ver o que há em outros Estados do Brasil e do mundo. E vamos construir isso juntos".

A Delta de Cavendish recebeu R$ 992,4 milhões em contratos com o governo do Rio, durante o primeiro mandato de Cabral, entre 2007 e 2010, um crescimento de 150% em comparação a 2003-2006. Este ano, dos R$ 241,8 milhões pagos à Delta pelo governo do Rio, R$ 58,7 milhões vêm de contratos com dispensa de licitação. A EBX de Eike obteve R$ 79,2 milhões de benefícios fiscais na gestão Cabral.

O governador ainda admitiu ter errado ao chamar de "vândalos" e "irresponsáveis" os bombeiros que participaram da invasão ao quartel da corporação em protesto por melhores salários, no início do mês. Anteontem, a Alerj aprovou três projetos favoráveis à categoria.D

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