Acusações camuflam debate político

Campanha eleitoral chega ao fim frustrando expectativas, por deixar de lado o aprofundamento de questões políticas relevantes

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Talvez já esteja difícil de lembrar, mas antes de a corrida eleitoral começar de fato, havia um otimismo no ar. Dizia-se que o nível da disputa seria elevado - afinal, os principais candidatos que despontavam como os indicados de seus partidos eram respeitáveis. Era comum se ouvir um suspiro aliviado, seguido do comentário: "Pelo menos não há nenhum Collor". A percepção era de que o Brasil já tinha consolidado suficientemente sua democracia para pensar seu futuro com alguma profundidade.

Hoje, a eleição 2010 chega ao fim. E resta um quê de frustração com relação à qualidade do debate. "Depois de 16 anos de avanços em todas as áreas, era razoável se esperar que os dois partidos responsáveis por essas melhorias apresentassem representantes até iluminadores do debate político", avalia Renato Lessa, cientista político e professor do Iuperj e da Universidade Federal Fluminense. "Foi um excesso de expectativa. As campanhas se caracterizaram por uma forte despolitização e os candidatos não assumiram posições políticas claras. Ficou tudo muito confuso em termos de que campos estão demarcados."

O segundo turno foi especialmente nebuloso. A discussão sobre o aborto, iniciada ainda na primeira etapa, e as acusações de corrupção de lado a lado enterraram qualquer possibilidade de aprofundamento de questões políticas relevantes. "Os candidatos passaram como gato sobre brasa na questão da terra, da reforma urbana, da política externa, do tipo de seguro que o pré-sal terá, para citar algumas", enumera o historiador Carlos Guilherme Mota, professor da USP. "Além disso, o historiador do futuro terá dificuldade em explicar a extensiva presença de religiosos neste ano."

Vazio. Corrupção e religião pautaram os discursos de Dilma Rousseff e José Serra no segundo turno, quando os dois ficaram "sozinhos na sala", e essa combinação não é randômica. A despolitização das campanhas e dos cidadãos deixa um vazio, preenchido mais facilmente por temas de apelo eleitoral. "Uma causa disso é a invertebração dos partidos políticos. Eles são importantes para a captura de votos e isso dá a ilusão de que são fortes. Mas os partidos são fracos na formação de opinião", explica Lessa.

O discurso político dos candidatos se torna rarefeito e a decorrência é uma forte dependência dos marqueteiros, que põem na boca dos presidenciáveis o que eles devem dizer. "É difícil deduzir da campanha que governo será feito por qualquer um dos dois. Fica só a escaramuça de mostrar ao eleitor que o opositor é um bandido, mentiroso. São transferidas para o campo político questões do código pessoal, como a de confiança e a religiosa", acrescenta o cientista político. Claro que o material farto de corrupção dos dois lados colabora para isso. "Só que não se faz uma campanha presidencial com base em denúncias. Eles que fossem para a Justiça averiguar quem é ladrão", completa. O historiador Mota diz ainda que "enquanto as acusações sobre corrupção foram muitas, nenhuma análise institucional sobre o problema foi feita. E a palavra transparência ficou gasta".

As próximas. Essa decepção será perpétua ou um leve otimismo sobre o nível das próximas eleições é possível? Para Renato Lessa, isso dependeria de um esforço tremendo de politização dos brasileiros. "Já temos democracia em quantidade. Falta qualidade, educação cívica, politização", analisa ele.

Um dos terrenos mais profícuos para isso, as universidades, ainda não demonstra firmeza nesse propósito, acredita Mota. "No fim da corrida eleitoral, a universidade brasileira acordou, saindo de seu silêncio ensurdecedor. Quer discutir a nação, dar apoios. Mas não logra reformar-se, atualizar-se para novos projetos. O Brasil caracteriza-se hoje por um enorme vácuo político, cultural e institucional. "

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