HELIA SCHEPPA/JC IMAGEM
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Acusado de canibalismo diz que agiu para 'melhorar o mundo'

Em julgamento, trio conhecido como 'canibais de Garanhuns' negou que restos do corpo de jovem foram usados para fazer salgadinhos

Mônica Bernardes, Especial para O Estado

13 de novembro de 2014 | 20h58

Atualizada às 23h55

RECIFE - Começou na manhã desta quinta-feira, 13, no Fórum de Olinda, na Região Metropolitana do Recife, o julgamento do trio que ficou conhecido como "Os canibais de Garanhuns". Sob clima tenso e revolta de pessoas que lotavam os acessos ao Fórum, Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, de 52 anos, Isabel Cristina Torreão Pires, de 53, e Bruna Cristina Oliveira da Silva, de 28, falaram pela primeira vez sobre a acusação de matar, esquartejar e comer o corpo da moradora de rua Jéssica Camila da Silveira Pereira, de 17 anos, em maio de 2008, na periferia de Olinda. 

Em seu depoimento, Jorge Beltrão - marido de Isabel e amante de Bruna - confirmou ter sido responsável pelo golpe que matou a vítima, pelo esquartejamento e ocultação dos restos mortais. O acusado disse que agiu movido pela crença de que estaria "melhorando o mundo" seguindo supostos preceitos estabelecidos por uma seita criada por ele e as duas mulheres, chamada de "cartel". Jorge - que também disse ter consumido a carne da jovem morta por várias vezes, em rituais de purificação - deu detalhes sobre o crime, confirmando diversas passagens escritas por ele em uma espécie de diário que escreveu sobre o caso e batizou de "Diário de um esquizofrênico". 


O acusado também disse que tem problemas de depressão e revelou ter "apagões" quando não tomava os remédios controlados. A hipótese de problemas mentais, no entanto, foi afastada por peritos, que afirmam que o homem tenta fingir problemas mentais. No final de seu depoimento, ele disse estar arrependido e pediu desculpas aos familiares da vítima. 

A segunda a depor foi Isabel Cristina. Ela negou ter participado da morte e esquartejamento da jovem. "Eu subi com a criança. Bruna e Jorge ficaram e mataram Jéssica", disse. Ela confirmou que consumiu a carne da jovem e fez a criança, filha da vítima, comer também. A mulher - que na época da prisão do grupo, em abril de 2012, chegou a dizer que havia usado parte da carne de Jéssica para rechear salgados vendidos por ela e Bruna pelas ruas e pontos comerciais de Garanhuns - desmentiu a informação. 

"Nós comemos, várias vezes a carne dela. Congelamos e preparamos de diversas formas. Mas essa história de rechear cozinhas e empadas eu inventei porque na época da prisão fui para a delegacia e tive medo de apanhar. Disse isso para ver se me levavam para o manicômio judiciário, que era mais seguro", afirmou. 

Já Bruna Cristina, terceira a depor, contradisse vários pontos dos depoimentos dos cúmplices. Disse que durante a morte de Jéssica, "só a segurou" para que Jorge a matasse. A acusada disse ainda que a criança não teria presenciado o crime (como disse Jorge) e também não teria consumido a carne da própria mãe. 

Bruna afirmou que cometeu os crimes de ocultação de cadáver e consumo de carne humana por se sentir "coagida" por Jorge. "Eu passei a viver com eles desde muito jovem. No começo era tudo normal, mas depois fui vendo coisas estranhas e acabei participando disso porque não tinha jeito", disse. Ainda segundo a acusada em alguns momentos, ela teve "receio" de acabar sendo vítima de Jorge e Isabel. "Vi e vivi muita coisas durante estes anos todos. O que aconteceu com a Jéssica, não tinha filme de terror que se comparasse. Nem jogos mortais", destacou. 

Aparentando calma, Bruna contou ainda que o grupo teria planejado matar outra jovem, mas que acabou optando por Jéssica por achar que era uma "presa mais fácil". 

Às 19h30, depois de 12h horas de duração, a sessão foi suspensa e será retomada na manhã desta sexta-feira. 

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