Acusado de chefiar milícia da Favela do Batan se entrega no Rio

Advogado de Odinei da Silva negou que seu cliente tenha envolvimento com crime e disse que 'não há provas'

Clarissa Thomé, de O Estado de S. Paulo,

16 de junho de 2008 | 12h27

Depois de permanecer 14 dias foragido, o inspetor de Polícia Civil Odinei Fernandes da Silva entregou-se nesta segunda-feira, 16, à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). Conhecido como Zero Um, ele é acusado de chefiar a milícia na Favela do Batan, na zona oeste, e de ter comandado a tortura a uma equipe de reportagem do jornal O Dia. Ele negou todos os crimes. Veja também:Chefe de milícia nega ter comandado tortura de jornalistasPreso o número 2 da milícia da Favela do Batan, no RioDeputados pedem apuração de tortura a jornalistas no RioMoradores confirmam prática de tortura em favela do Rio O inspetor chegou à Draco por volta das 11 horas, acompanhado do advogado André Gomes. Prestou depoimento durante cerca de 45 minutos. Disse que só conhecia a milícia pelas reportagens da imprensa e que, no dia da tortura aos funcionários de O Dia, estava numa festa com a família, de onde saiu "muito embriagado". "Aliás, que tortura? Não há laudo físico atestando que houve tortura", afirmou o advogado, em entrevista. Gomes disse que seu cliente está sendo alvo de represálias por conta de sua atuação sindical quando ainda era agente penitenciário e por denúncias de corrupção que teria feito entre 1999 e 2005 (ele ingressou na Polícia Civil em 2006). Sobre o fato de Odinei ter sido citado num relatório da Anistia Internacional por tortura de presos, reagiu: "Não há provas. Esse é um relatório feito por americanos, que torturam no mundo todo". Gomes questiona ainda o fato de a repórter e de o fotógrafo do jornal carioca terem reconhecido seu cliente por fotografia. "As vítimas alegam que foram torturadas por homens encapuzados. Como podem tê-lo identificado?", indagou. De acordo com o titular da Draco, Cláudio Ferraz, a equipe de O Dia reconheceu o policial "pela voz, pelo procedimento e pela compleição física". O inspetor é o segundo preso pela tortura da equipe do jornal. Em 4 de junho, a polícia anunciou a prisão de David Liberato de Araújo, um presidiário que cumpria pena em regime semi-aberto. Ele seria o segundo homem na hierarquia da milícia. "Prendemos o zero um e o zero dois da milícia. Ainda estamos investigando a participação de policiais civis e militares, além de agentes penitenciários nesse grupo criminoso", afirmou Ferraz. Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal O Dia foram seqüestrados por milicianos da favela do Batan, quando faziam uma reportagem infiltrados na comunidade. Eles foram torturados durante sete horas e meia. Por terem sido vítimas de policiais, decidiram não registrar queixa na delegacia do bairro e não passaram por exame de corpo de delito. Um laudo médico, atestando a tortura, foi anexado ao Inquérito. O secretário de Estado de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que Odinei será expulso da Polícia Civil, já que estava em estágio probatório (menos de três anos no cargo). "Queremos extirpar esse elemento da corporação", afirmou. Atualizado às 20h45

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