Acusados de matar missionário vão a julgamento no MT

Começou nesta terça-feira, 24, em Cuiabá (MT) o julgamento, pelo Tribunal do Júri da Justiça Federal, dos acusados do assassinato do missionário jesuíta Vicente Cañas, que vivia com o povo indígena Enawenê-Nawê, em uma área próxima ao município de Juína, no Mato Grosso. Cañas, que lutava pela demarcação de terras indígenas na região, foi assassinado há 19 anos.Estão sendo julgados pelo crime o ex-delegado de Polícia Civil de Juína, Ronaldo Antônio Osmar, e um ex-pistoleiro local chamado José Vicente da Silva. Os dois são acusados de cometer homicídio duplamente qualificado, mediante pagamento e em emboscada e serão julgados separadamente: Primeiro o ex-delegado e, a partir da próxima terça-feira, o ex-pistoleiro. As penas podem variar de doze a trinta anos de reclusão.Trata-se de um julgamento histórico para os movimentos indigenistas, que o consideram um marco contra a impunidade.O inquérito policial, inicialmente conduzido pela Polícia Civil do Estado, tramitou durante seis anos e enfrentou percalços desde a sua origem. O primeiro responsável pelas investigações foi o próprio ex-delegado Osmar, que acabou migrando para o banco dos réus sob a acusação de participar do assassinato. Além disso, laudos foram invalidados e até o crânio do missionário chegou a desaparecer.Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a transferência das investigações da esfera estadual para a federal permitiu mais rapidez nas apurações. Mas, ainda assim, a demora na conclusão do inquérito acabou beneficiando três dos seis denunciados. Fazendeiros da região eram acusados pelo Ministério Público Federal de serem os mandantes do crime. Os três foram beneficiados pela prescrição da pena por terem mais de 70 anos, como prevê a legislação brasileira. O sexto fazendeiro acusado morreu.Vicente Cañas viveu com os Enawenê por dez anos. Foi assassinado a facadas em 1987 quando se preparava para levar medicamentos a uma aldeia. O corpo foi encontrado cerca de quarenta dias depois do crime por outros dois missionários, em frente ao barraco onde morava, com o abdômen perfurado. Os óculos estavam quebrados por uma porretada no rosto e o barraco, em desordem, indicava sinais de luta.Previsto para o início da manhã, o julgamento só começou de fato no final da tarde. As primeiras horas foram consumidas por discussões processuais. Ele é presidido pelo juiz Jefferson Schneider e a acusação cabe ao procurador da República Mário Lúcio Avelar, que também acompanham as investigações dos sanguessugas e da compra do dossiê contra políticos tucanos.Para marcar a data, representantes de movimentos de defesa de direitos humanos, indigenistas - entre eles o ex-presidente do CIMI e da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomaz Balduíno, bispo emérito de Goiás - fizeram uma manifestação.

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