Adeptos do candomblé acusam evangélicos por morte de mãe de santo

Mildreles Dias Ferreira, de 90 anos, teve um enfarte; familiares dizem que integrantes de igreja insultaram a ialorixá por várias horas

Heliana Frazão, Especial para O Estado

10 de junho de 2015 | 19h30

SALVADOR - Uma das mais conhecidas e respeitadas ialorixás de Camaçari, município da Região Metropolitana de Salvador, Mildreles Dias Ferreira, de 90 anos, mais conhecida como Mãe Dedé, morreu no final do mês de maio, vítima de enfarte. Familiares da mãe de santo, inconformados, acusam integrantes de uma igreja evangélica como responsáveis pelo fato, que teria sido provocado, de acordo com eles, por meio de práticas de intolerância religiosa. O caso reacendeu o debate sobre o tema entre os seguidores das seitas de matriz africana, na Bahia.

Informações da 26ª Delegacia de Vila de Abrantes, onde o caso foi registrado, mostram que os desentendimentos começaram há cerca de um ano, quando a igreja, intitulada "Casa da Oração Ministério em Cristo", se instalou nas proximidades do terreiro de candomblé Oyá Denã que existe na região há mais de 40 anos. Os desentendimentos causaram até um registro de denúncia policial no dia 15 de maio.  

Segundo o coordenador de Promoção da Igualdade Racial de Camaçari, João Borges, a hostilidade à líder do terreiro e seus devotos tornou-se uma constante. Até que na noite do sábado, 30 de maio, um grupo de fiéis da igreja evangélica promoveu uma vigília de "libertação" e teriam dirigido insultos à ialorixá por várias horas, amaldiçoando e rogando pragas contra o terreiro. Sob forte tensão e pressão psicológica, Mãe Dedé, de idade avançada, não suportou e sofreu um enfarte, morrendo em seguida.

João Borges diz que há algum tempo vem recebendo denúncias sobre ações caluniosas e ofensivas, contra a mãe de santo, provenientes dos evangélicos. "Na noite da morte, os parentes informaram que os fiéis da igreja resolveram realizar um culto religioso praticamente na calçada do terreiro, demonizando os orixás", contou ele. "É um fato claro de perseguição e intolerância religiosa", garante.

A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado (Sepromi) lamentou a morte de Mildreles Dias Ferreira, considerada uma das mais antigas e respeitadas lideranças do município, tendo contribuído para a preservação e valorização do candomblé. O órgão prometeu acompanhar as investigações do caso, por meio do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela.

Representantes do Coletivo de Entidades Negras (CEN), da Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de Camaçari e do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, além de parentes da mãe de santo, também pediram atenção do Ministério Público para o caso.

A reportagem não encontrou integrantes da igreja evangélica para comentarem o fato.

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