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Segundo informações da Polícia Militar, jovem entrou na unidade e golpeou professores e alunos. Imprensa do Povo

Sobe para cinco o número de mortos em ataque a escola infantil em Saudades, SC

Segundo informações da Polícia Militar, jovem entrou em unidade educacional e começou a golpear professores e alunos

Luis Lopes, Especial para o Estadão

04 de maio de 2021 | 11h46
Atualizado 04 de maio de 2021 | 22h24

Correções: 04/05/2021 | 22h24

CHAPECÓ - Um jovem de 18 anos identificado como Fabiano Kipper Mai matou pelo menos cinco pessoas, entre elas três crianças com idades entre seis meses e dois anos, uma professora e uma funcionária ao invadir uma creche armado com um uma adaga (espada) no município de Saudades, a aproximadamente 60 km de Chapecó, no oeste de Santa Catarina.

Segundo o delegado Jerônimo Marçal Ferreira, da comarca de Pinhalzinho, o jovem não tem passagem pela polícia nem histórico criminal. “Era um rapaz discreto que morava na cidade e trabalhava em uma empresa de vestuário. As equipes já estão se deslocando para entrevistar os colegas de trabalho”, disse ele, em entrevista à Rádio Bandeirantes.

A polícia diz que o autor do crime foi à creche Pró-Infância Aquarela, no centro da cidade, de bicicleta, por volta das 10h. Ao entrar na escola, ele começou a atacar uma professora de 30 anos que, mesmo ferida, correu para uma sala onde estavam quatro crianças e uma funcionária da escola, na tentativa de alertar sobre o perigo.

O rapaz, então, teria atacado as crianças que estavam na sala e a funcionária da escola. Duas meninas de menos de dois anos e a professora morreram no local. Outra criança e a funcionária morreram no hospital.

O delegado também confirmou que a ação foi planejada. “O crime foi premeditado, ele chegou de bicicleta na creche, com uma mochila nas costas, uma professora o abordou e ele começou a atacá-la com golpes de facão nas costas. O jovem seguiu a professora até uma sala onde atacou também a outra funcionária auxiliar e mais quatro crianças com menos de dois anos", afirmou Ferreira à rádio. 

O responsável pelo caso não descarta a participação ou influência de outras pessoas no crime. “Até o momento só trabalhamos no local do crime, durante a tarde vamos traçar a vida do rapaz, contatos dele e levantamento do histórico do computador”. A polícia trabalha com algumas hipóteses, sendo uma delas a possibilidade de o rapaz estar participando de algum desafio online, influenciado por alguma motivação na Internet.

O Corpo de Bombeiros confirmou que ao chegar ao local, o jovem já havia sido contido por populares. Ele tinha um ferimento profundo no pescoço e perguntava sobre quantas vítimas teria conseguido atingir. Ele permanece internado no Hospital Regional do Oeste em Chapecó, onde passou por cirurgia na tarde desta terça, após tentar tirar a própria vida com a arma usada para matar uma professora, uma agente educativa e três crianças.

Fabiano Kipper Mai de 18 anos é estudante, solteiro que cursava o 9º ano do ensino fundamental. Natural de Saudades, trabalhava como jovem aprendiz em uma indústria de confecções da cidade. Segundo um familiar que não quis se identificar, Fabiano era jovem "normal" e trabalhador, que não aparentava qualquer sinal de que poderia cometer um crime como esse.

Segundo o delegado regional, Ricardo Casagrande, equipes de pelo menos quatro municípios estão envolvidas na investigação. Um mandado de busca e apreensão foi expedido para fazer buscas na residência do jovem. 

Vítimas identificadas

A prefeitura de Saudades divulgou os nomes da professora e da agente educativa que morreram após o ataque à creche Aquarela na manhã desta terça-feira. Keli Aniecevski tinha 30 anos e era professora na escola. Ela foi a primeira a ser atacada pelo jovem de 18 anos. Foi ela quem tentou evitar que o jovem chegasse às salas onde estavam as crianças. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu no local. 

Mirla Renner, de 20 anos, é a agente educativa que estava com as quatro crianças em uma das salas onde o rapaz entrou e acabou matando duas crianças e ferindo a agente e mais duas crianças. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital. 

Ainda esta tarde, a Polícia Civil de Santa Catarina confirmou o nome das três crianças mortas durante o ataque. São duas meninas e um menino, todos com menos de 2 anos. Sarah Luiza Mahle Sehn tinha 1 ano e 7 meses, Murilo Massing, 1 ano e 9 meses, e Ana Bela Fernandes de Barros, de 1 ano e 8 meses.

Uma quarta criança permanece internada no Hospital Regional do Oeste em Chapecó. O hospital informou que não divulgará boletins a respeito do estado da criança por determinação legal. 

Crime choca população

O governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), lamentou o ocorrido. 'Todas as energias das forças de segurança da região devem ser empregadas no esclarecimento desse trágico episódio', afirmou no Twitter. 


Em sua página oficial, a governadora em exercício Daniela Reinehr também manifestou sua solidariedade às vítimas da tragédia e decretou luto oficial de três dias no Estado.

O time da Chapecoense publicou uma nota nas redes sociais sobre o ocorrido:

Saudades, um município pacato em SC

O município de Saudades tem pouco mais de 10 mil habitantes, com índice de criminalidade quase zero.

 

Correções
04/05/2021 | 22h24

O autor do crime tem 18 anos e não 14, como publicado inicialmente. 

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Vítima de agressor em creche de SC tinha paixão pela educação e fazia trabalho voluntário

'Ela era muito dedicada', conta amiga de Mirla Renner, de 20 anos, que morreu após ataque em creche da cidade de Saudades. Três crianças e uma outra professora também foram mortas por Fabiano Kipper Mai, de 18 anos

João Ker, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2021 | 21h15

Antes de trabalhar na creche Pró-Infância Aquarela, onde foi atacada e morta nesta terça-feira, 4, Mirla Renner, de 20 anos, fazia trabalho voluntário no Rotaract Club de Saudades, em Santa Catarina, onde participou de campanhas pela doação de sangue, sendo ela mesma uma das doadoras. A paixão pela educação era grande e, em 2019, ela trabalhava na Escola Municipal de Ensino Fundamental, onde se dedicava exclusivamente a uma aluna de 9 anos, portadora de necessidades especiais.

“Ela era muito dedicada, querida, meiga, estudiosa e toda delicada. Não consigo pensar em uma coisa ruim sobre ela”, conta a amiga Jamile Muller, de 32 anos. Ela conheceu Mila em 2019, quando ambas trabalhavam na escola de ensino fundamental. Filha única, a jovem era bem próxima à mãe, a quem se dedicava enquanto o pai viajava a trabalho. 

Jamile lembra que Mila ficou próxima da aluna que cuidava e, além de explicar todas as matérias para a criança, costumava pintar as unhas da estudante. Concursada, a professora estudava inglês à noite e estava solteira havia poucos meses. “Ela sempre me dizia que não tinha nascido pra trabalhar com escolas, que o que ela gostava mesmo era de bebês. Por isso que ela estava na creche, porque estava fazendo o que gostava”, conta.

Mirla foi uma das cinco pessoas mortas por Fabiano Kipper Mai, de 18 anos, que invadiu a unidade na manhã desta terça-feira e atacou funcionários e crianças. Entre os adultos, Mirla e a professora Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, foram as vítimas. Três crianças entre 6 meses e 2 anos também morreram. 

Mai permanece internado no Hospital Regional do Oeste em Chapecó, onde passou por uma cirurgia durante a tarde desta terça, após tentar tirar a própria vida. Ele é estudante e cursava o nono ano do ensino fundamental. Natural de Saudades, trabalhava como jovem aprendiz em uma indústria de confecções da cidade. 

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Mesmo ferida, professora correu para alertar colegas sobre ataque em creche de Santa Catarina

Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, foi atacada a golpes de facão e correu para tentar proteger as crianças. 'Verdadeira heroína. Conseguiu proteger várias crianças, mas perdeu a própria vida', diz uma prima da vítima

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2021 | 18h45

SÃO PAULO - Na manhã desta terça-feira, 4, a professora Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, se prontificou a atender um estranho que apareceu na creche Pró-Infância Aquarela, onde trabalhava em Saudades, cidadezinha no oeste de Santa Catarina. Lugar pacato, quem imaginaria uma tragédia dessas? Pega desprevenida, acabou atacada a golpes de facão e, mesmo com ferimentos graves, correu para alertar os demais sobre o agressor e tentar proteger os meninos e meninas, todos de seis meses a dois anos. 

Não houve tempo sequer para receber socorro médico: a professora foi a primeira a ter morte confirmada. O massacre soma cinco vítimas até o momento. “Ela foi uma verdadeira super-heroína. Conseguiu proteger várias crianças, mas perdeu a própria vida”, diz a prima Silvana Ester Helfer, de 29 anos.

As duas eram bem amigas desde a infância, quando a família de Keli se mudou de uma área afastada para um casa mais perto do centro de Saudades, município localizado na região de Chapecó-SC. Neta mais velha, a professora era solteira, tinha um irmão e ainda morava com os pais.

Na verdade, Keli era formada em Sistemas de Informação, mas se dava bem mesmo com criança. Podia passar horas brincando ou cuidando delas, segundo a família. Tanto que conseguiu um emprego fora da sua área e virou professora da creche há mais de cinco anos.

“Eu tive uma filha, recém-nascida, que só viveu 2h30 e Keli seria a madrinha dela. Mas a nossa família nunca viveu nenhuma tragédia parecida com a de hoje”, afirma Silvana, que é mãe de outro menino. “Ele adora a tia. Na semana passada, até me perguntou quando a gente iria para a casa dela brincar.”

No seu perfil no Facebook, Keli costumava compartilhar mensagens positivas e campanhas beneficentes. Entre as ações, publicou recentemente imagens de uma visita a um lar de idosos em Pinhalzinho, cidade vizinha. Também há posts de quando deixou o cabelo crescer para doá-lo. 

“Era uma pessoa muito alegre, espontânea e carismática. De uma luz interior incrível: passava tranquilidade para todo mundo e deixava todo lugar mais feliz”, descreve Silvana, que foi para a casa dos tios, ampará-los, após o ataque. “O município inteiro está em choque.”

Com população estimada de 9,8 mil habitantes, é comum que as pessoas sejam próximas em Saudades. No entanto, a família de Keli afirma nunca ter ouvido falar do criminoso - identificado pela Polícia Civil como Fabiano Kipper Mai, de 18 anos.

Silvana conta que acordou animada na manhã da tragédia. Pôs uma música e começou a tirar as roupas da máquina de lavar, quando o telefone tocou. Era a mãe:“Filha, está sentada? É melhor sentar”. “Levei um susto. A notícia chegou como uma bomba. Keli era uma pessoa tão boa que ninguém está acreditando ainda. Não há muito o que dizer. Já tentei deitar, puxar os olhos, dizer que é mentira. Queria muito que fosse mentira.”

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