Adolescente morre de anorexia nervosa no Rio

A família da adolescente Maiara Galvão Vieira, de 14 anos, que morreu sábado, 6, em conseqüência de uma anorexia nervosa, com apenas 38 quilos, nunca suspeitou das idas da menina ao banheiro, logo após as refeições. Os sinais da doença passaram despercebidos dentro de casa, onde ninguém tinha conhecimento do assunto, mas foram igualmente ignorados nas emergências dos três hospitais públicos por onde a paciente passou entre setembro e dezembro. Por causa da demora no diagnóstico, os pais da menina, moradores de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, pensam em entrar com um processo por negligência médica. "Os médicos nunca falaram nada sobre anorexia nervosa. Diziam que era uma virose ou que ela estava com anemia. Só davam soro e liberavam", contou nesta segunda-feira, 8, a tia da adolescente, a comerciária Rosa Maria Rodrigues.Ela disse que os pais de Maiara não queriam falar com a imprensa, pois ficaram chateados com declarações feitas contra eles em um debate de rádio. "Falaram que eles queriam que a filha virasse modelo para poder ganhar dinheiro com isso. Eles sabiam que era um sonho dela desfilar, aparecer na televisão, mas nunca forçaram nada", contou a tia, sem conseguir segurar o choro.Rosa lembra que a família fez de tudo para descobrir o que Maiara tinha. Por diversas vezes, o pai dela, o sapateiro Marcos Galvão Vieira, levantou-se de madrugada para enfrentar filas e conseguir uma ficha de atendimento em uma unidade pública de saúde, tentativa muitas vezes frustrada.Além disso, a família chegou a aguardar quase dois meses para conseguir marcar um exame para a adolescente. "Só quem precisa de um hospital público é que sabe como tudo é muito difícil. Fizemos de tudo, mas os médicos não conseguiam descobrir o que estava acontecendo", relatou a tia, referindo-se a profissionais dos hospitais estaduais Rocha Faria e Pedro II, e do Hospital Municipal Souza Aguiar. A doença só foi descoberta no Miguel Couto.InternaçãoSegundo Rosa, Maiara, que morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória, permaneceu lúcida durante os 26 dias de internação no Hospital Municipal Miguel Couto. Até alimentos sólidos, mas nem sempre conseguia retê-los no estômago. "Uma vez ela disse que queria comer uva. Eu trouxe, ela botou apenas duas na boca e, logo depois, e já começava a meter o dedo para colocar tudo para fora. No dia que ela morreu, pediu para a irmã levá-la para casa. Estava meio triste", recordou a tia, contando que a menina estava recebendo tratamento psicológico no Miguel Couto. Quando morreu, estava com um Índice de Massa Corporal 13. O indicador, que mede a relação entre peso e altura, está muito abaixo de 18,6, valor mínimo considerado como normal pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desconhecimento sobre a doençaPara o presidente da Federação Latino-Americana das Sociedades de Obesidade, o endocrinologista Walmir Coutinho, a sociedade - em especialmente os profissionais de saúde - precisa, urgentemente, conhecer mais sobre os transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. "Ainda existe um grande desconhecimento sobre a maneira como a doença se apresenta. E, muitas vezes, se perdem oportunidades importantes de diagnóstico", alertou.Se há dificuldade entre a classe médica, o quadro é ainda pior dentro de casa, pois, observou Coutinho, as adolescentes tentam disfarçar os novos hábitos. "Além disso, em praticamente todas as famílias há uma adolescente fazendo dieta para emagrecer. É muito difícil para os pais saber se é uma dieta patológica ou uma dieta normal", observou, chamando atenção para o impacto nocivo de blogs, sites e páginas no site de relacionamentos orkut, que trazem dicas para perder peso extremamente perigosas. "Estudos epidemiológicos mostram que o crescimento de prevalência dos transtornos não é muito acelerado. Porém, nada comparado com a obesidade. Mas acho que o aumento pode estar acontecendo, entre outros motivos, por causa dos estímulos encontrados na internet", destacou o médico.Procurados pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde informou que a adolescente chegou desidratada e foi devidamente tratada. Já a Secretaria de Saúde do Estado disse que não poderia se pronunciar sobre o caso, já que o atendimento foi feito durante a gestão anterior. Outros casosDesde novembro de 2006, os casos de morte decorrentes da anorexia levantaram o debate na sociedade, e no mundo da moda, sobre o problema. No dia 26 de dezembro, a estudante Beatriz Cristina Ferraz, de 23 anos, morreu em Jaú, no interior de São Paulo, após sofrer duas paradas cardíacas decorrentes de uma anorexia nervosa que a acometia havia anos.Em novembro, a modelo Ana Carolina Reston morreu aos 21 anos pesando 40 quilos distribuídos em 1,74 metro. Ela ficou três semanas internada com dores renais e morreu de infecção generalizada. Alguns dias depois, a estudante de moda Carla Sobrado Cassalle, da mesma idade, morreu em Araraquara, interior de São Paulo, também vítima de complicações desencadeadas pela anorexia nervosa. No início do mês, a manicure Rosana de Oliveira, de 23 anos, de Araçatuba, também em São Paulo, morreu com 38 quilos após três anos convivendo com a doença.

Agencia Estado,

08 de janeiro de 2007 | 19h29

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