Advogada de promotor tenta comprovar que tiro foi acidental

A advogada Tereza Doro, que defende o promotor João Luis Portolan Galvão Miniccelli Trochmann, acusado de tentativa de homicídio contra a mulher, Erika May Trochmann, requisitará amanhã uma série de exames na tentativa de comprovar a hipótese de disparo acidental. Erika foi atingida por um tiro abaixo do queixo disparado pela arma do marido, um revólver 38.O promotor foi preso ontem de madrugada na Santa Casa de Valinhos, no interior de São Paulo, para onde levou a mulher baleada. Ele havia dito que o casal tinha sido vítima de uma tentativa de assalto, mas Erika afirmou aos policiais militares que Trochmann tentou matá-la durante uma discussão.O casal está em processo de separação. Trochmann foi apresentado à Procuradoria-Geral da República, em São Paulo, e levado para o quartel da Cavalaria da Polícia Militar da capital paulista, onde permanece detido. A Santa Casa de Valinhos encaminhou Erika para o Hospital Samaritano, em Campinas (SP).Segundo o diretor do hospital, Paulo Sérgio Campos, a paciente foi submetida ontem a uma cirurgia para extração do projétil, que havia ficado alojado em seu pescoço, e não corre risco. Campos explicou que ela está sendo intensivamente acompanhada pela equipe médica para controlar possíveis infecções.O diretor explicou que o ferimento não deverá deixar nenhuma seqüela grave. Hoje, conforme o médico, a paciente estava bem, consciente e com o quadro estável. "Ela está conversando, mas preferiu não falar sobre o ocorrido", disse Campos. Segundo ele, Erika deverá ter alta médica ainda esta semana. Os parentes do casal não quiseram falar com a imprensa.Tereza comentou que o promotor ainda não contou a ninguém o que aconteceu na madrugada de ontem, dentro de sua casa, no bairro Vale Verde. "Em seu depoimento na Procuradoria, ele disse apenas que estava emocionalmente abalado, sedado e não tinha condições de coordenar o raciocínio", relatou.A advogada contou que fez uma série de requisições à Procuradoria, todas negadas. Ela pretende reapresentá-las amanhã. Irá requerer um exame residuográfico na mão do promotor, atingida por um tiro, para saber a que distância ocorreu o disparo. Também pedirá um exame psicológico de seu cliente e que seja refeito o exame de corpo de delito."O que foi feito na Procuradoria não consignou arranhões que o promotor tem pelo corpo", acusou Tereza. Ela acredita que a hipótese de tiro acidental é a mais plausível. De acordo com a advogada, a bala que atingiu o queixo de Erika deve ter sido amortecida pela mão do promotor. "Se não, os ferimentos dela seriam mais graves", garantiu.Conforme Tereza, o revólver do promotor tinha quatro projéteis, dois deflagrados, e não três, como apontou a Polícia Militar. A PM chegou a divulgar que um tiro foi disparado contra Erika, outro atingiu a parede do banheiro, onde o casal brigava, e o terceiro a mão do promotor. A PM cogitou que ele poderia ter atirado contra sua mão para reforçar a tese de assalto.Trochmann atua há cerca de dois anos como promotor de Justiça em Perus. Antes ele havia trabalhado em São Paulo e na década de 80 foi promotor da Vara da Infância e da Juventude de Campinas. A advogada disse desconhecer se há algum processo contra seu cliente na Justiça.Ela contou que pretende pedir a liberdade provisória de Trochmann, mas antes quer ouvir o que ele tem a dizer.Segundo os vizinhos, o casal se mudou há cerca de um ano para o bairro Vale Verde, um condomínio tranqüilo de classe média, muito arborizado e de acesso controlado. Mesmo os mais próximos comentaram que quase não vêem os advogados e que a casa permanece fechada a maior parte do tempo.A vizinha dos fundos, que preferiu não ter seu nome divulgado, alegou que o casal é discreto e tem pouco contato com os moradores do bairro.Ela afirmou não ter ouvido nada na madrugada de ontem. Além do caso Trochmann, outros dois envolvendo funcionários da Justiça ficaram famosos na região de Campinas. Em junho de 1998, o promotor Igor Ferreira da Silva foi acusado pela morte de sua mulher Patrícia Aggio Longo, grávida de sete meses. O promotor alegou tentativa de assalto, mas acabou condenado pelo assassinato e está foragido desde abril do ano passado.Na década de 70, no bairro Nova Campinas, em Campinas, o procurador de Justiça Augusto Carlos Eduardo da Rocha Monteiro Gallo, pai da atriz Maitê Proença, foi acusado de ter matado a mulher, a professora de francês Margot Proença Gallo, de 37 anos com 11 facadas, por suspeita de traição. Ele foi absolvido duas vezes, casou-se novamente e se matou em 1989.

Agencia Estado,

08 de dezembro de 2002 | 19h26

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