Advogada nega acordo com PCC, mas confirma "boa vontade" de SP

A advogada criminal Iracema Vasciaveo, que representa a Nova Ordem - organização que trabalha na ressocialização de detentos em São Paulo -, confirmou nesta terça-feira, em entrevista coletiva, que foi ao presídio de Presidente Bernardes acompanhada de três representantes do sistema de segurança do Estado num avião da Polícia Militar, mas negou que tenha sido firmado qualquer acordo para pôr fim aos ataques e rebeliões desencadeados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).Segundo Iracema, a visita foi requisitada por ela, após pedidos feitos pelos familiares dos presos - Marcola (líder máximo do PCC) e mais sete líderes da facção criminosa - para averiguar a situação física dos criminosos."Entendo que isto foi uma demonstração de boa vontade (do governo de São Paulo)", disse Iracema, em referência ao atendimento rápido do seu pedido e ao empréstimo do avião para que se deslocasse até o presídio. A demanda foi apresentada no sábado pela manhã e o encontro aconteceu no domingo à tardeEntendimentoApesar de negar o acordo para que cessassem os ataques e rebeliões, Iracema deixou escapar que "havia uma instabilidade emocional dos familiares". "Os detentos que estão em Bernardes seriam a cúpula do PCC, então os familiares aqui fora devem ter, provavelmente, como articular alguma coisa, caso essa informação não chegasse(do bom estado físico dos presos)", disse a advogada.O diretor-presidente da Nova Ordem, Ivan Barbosa, por sua vez, interrompeu a coletiva por um breve momento para dizer que "poderia ter morrido mais gente se a doutora não tivesse ido lá".Iracema disse não ter considerado estranho o grupo que a acompanhou ao presídio - formado pelo corregedor da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), Antonio Ruiz Lopes, pelo delegado José Luiz Ramos Cavalcante, da Polícia Civil, e pelo coronel Ailton Araújo Brandão, comandante do Comando de Policiamento Interior. De acordo com ela, a indicação do corregedor do sistema penitenciário para acompanhá-la foi feita pelo próprio secretário da SAP, Nagashi Furukawa.Breve encontroIracema disse que o encontro com os presos foi breve, demorando em torno de 40 minutos, e que, nesse tempo, foi apenas verificada a condição física dos detentos e passada algumas informações para os presos. "(Eles) queriam saber por que estavam lá, já que reinava a paz dentro do sistema. Essa foi a pergunta geral", informou, sugerindo o desconhecimento dos presos em relação às rebeliões e aos ataques a policiais.Com relação ao avião, Iracema disse não ter especificado o meio de transporte que pretendia usar e que a decisão de disponibilizar uma aeronave pública partiu da própria SAP. Quem a informou do avião foi, segundo ela, o ouvidor da secretaria, Pedro Egydio. "Ele (Egydio) ligou dizendo que eu deveria estar no campo de Marte às 13h, para que nós saíssemos daqui", explicou. Sua chegada a São Paulo se deu apenas à meia-noite.Na tarde desta terça-feira, em coletiva concedida na capital paulista, o secretário da SAP confirmou a visita da advogada aos detentos, mas voltou a negar que tenha havido qualquer acordo, sugerindo ainda, para os repórteres, que confirmassem as informações com a advogada.Na coletiva, dada antes da entrevista de Furukawa, a advogada disse ter falado com membros da SAP antes de ter a conversa com os repórteres. "Aqui não se faz nada de livre e espontânea vontade, vamos dizer assim. Eu tomei a liberdade de ligar para a SAP e dizer que estava marcando um horário com vocês", afirmou. Iracema falou com o ouvidor da secretaria, Pedro Egydio, e com o delegado Cavalcante.A advogada insistiu, durante a entrevista, que não advoga para o "partido" (PCC), nem para os seus líderes, mas que, possivelmente, já defendeu algum membro da facção. "Como, segundo eles alegam, é uma entidade que tem diversos membros, você, logicamente, advoga para alguns deles."Nova OrdemA Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) para qual Iracema trabalha foi fundada em outubro do ano passado por iniciativa do ex-investigador e carcereiro policial Ivan Barbosa, que ficou preso na penitenciária de Avaré por 153 dias após ser acusado, pela CPI da Pirataria, de integrar uma quadrilha de contrabandistas que agia em São Paulo.Segundo ele, que informou já ter sido absolvido pela Justiça, a decisão de fundar a organização, que trabalha dando assistência aos detentos e seus familiares, veio da experiência que teve dentro da cadeia. Barbosa calcula que a Nova Ordem tem entre 15 e 20 mil associados, a maioria familiares de presos.

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