Advogados dos EUA vêm ao Brasil com perito em colisões

Advogados do escritório americano contratado por familiares das vítimas do vôo 1907 da Gol devem chegar ao Brasil nesta segunda-feira. Em entrevista à BBC Brasil, Lexi Hazam, uma das sócias do escritório Lieff Cabraser Heimann & Bernstein, de São Francisco, disse que durante sua estadia no país eles se reunirão com seus clientes e iniciarão uma investigação paralela à promovida pela Justiça brasileira, para a qual contarão com o auxílio de um perito em colisões aéreas, o suíço Hans-Peter Graf, ex-piloto e engenheiro mecânico que atuou na empresa de aviação SwissAir.A empresa de advocacia já representou clientes em desastres aéreos ocorridos em diversos países, como Estados Unidos, Peru, Indonésia, Chipre, Colômbia e Rússia. Na Grã-Bretanha, o escritório analisou o caso do atentado contra o vôo 103 da PanAm, que explodiu em pleno vôo, matando 270 pessoas. A investigação paralela servirá para obter os dados necessários para a abertura da ação civil que a empresa pretende abrir nos Estados Unidos, possivelmente contra mais de uma empresa envolvida no caso, como conta a advogada. ´A maior parte dos acidentes têm mais de uma causa e é raro que haja um só responsável. Há uma série de empresas americanas que podem ter alguma responsabilidade pelo acidente.´IndíciosDe acordo com Hazam, ainda é muito prematuro para se apontar culpados. Mas ela acrescenta que ´parece estar muito claro que houve alguma responsabilidade por parte dos pilotos do jato, mas eles podem não ser os únicos culpados´, afirma, em referência aos pilotos americanos que estão retidos no Brasil e que pilotavam o jato Legacy, da empresa dos Estados Unidos ExcelAire, que colidiu com o Boeing 737 da Gol em pleno vôo, no dia 29 de setembro.Em casos de desastres aéreos, é normal que haja muitos envolvidos. E não cabe a nós, mas sim ao tribunal, determinar quem tem mais ou menos responsabilidade pelo acidente.O acidente provocou a queda do Boeing em uma área da Floresta Amazônica, no Mato Grosso, e a morte dos 154 passageiros e tripulantes a bordo da aeronave. O jato Legacy conseguiu pousar em uma base aérea no Pará e os passageiros e pilotos do avião nada sofreram.Autoridades brasileiras levantaram a hipótese de que os pilotos teriam desligado os equipamentos anticolisão da aeronave no momento do acidente e ainda de que eles estariam voando a 37 mil pés (mais de 11 mil metros), quando deveriam estar voando a 36 mil pés. A dupla de pilotos nega responsabilidade pelo acidente.IndenizaçõesA advogada diz que poderão também ser feitos pedidos de indenização contra a Boeing, se comprovado que o acidente se deu devido à uma falha no avião 737 fabricado pela companhia, ou contra a empresa responsável pelo sistema que evita colisões, chamado TCAS, e pertencente à empresa americana L3.Mas de acordo com Hazam, a Embraer também pode vir a ser implicada, uma vez que foi ela que fabricou e vendeu o jato Legacy para a ExcelAire. A empresa brasileira poderia ser envolvida no caso se as investigações apontarem que a aeronave se encontrava com algum defeito de fabricação que tenha contribuído para o acidente. ´Se algo assim for comprovado, haveria meios de acionar a Embraer, que conta com inúmeros negócios e representações nos Estados Unidos´, acrescenta a advogada.Ação judicialHazam comenta que caso haja muitas empresas implicadas no caso, isso não enfraqueceria a ação judicial de forma alguma.´Em casos de desastres aéreos, é normal que haja muitos envolvidos. E não cabe a nós, mas sim ao tribunal, determinar quem tem mais ou menos responsabilidade pelo acidente.´ A advogada frisa que, por enquanto, tirar qualquer conclusão sobre as causas do acidente seria fazer especulações, mas que ´se as informações feitas pelas autoridades brasileiras forem verdadeiras, de que os pilotos americanos estavam voando em uma altura não-autorizada e não desceram quando foram solicitados a fazê-lo, certamente eles e a empresa para a qual trabalham serão responsabilizados´.Hazam comenta que a ExcelAire, que tem sede na cidade de Long Island, no Estado de Nova York, teria plenos recursos para pagar uma possível indenização, segundo estudos que seu escritório já realizou.´A empresa tem 18 aeronaves, avaliadas entre US$ 6 milhões e US$ 8 milhões e conta com cem funcionários, sendo que destes, 42 são pilotos e tripulantes com contratos de horário integral. Em 1997, seu lucro anual era de US$ 25 milhões. Levando em conta que o setor de jatos executivos cresceu 15% ao ano, ela deve ter acompanhado este crescimento. Mesmo porque, segundo relatos feitos pela empresa à imprensa, ela cresceu 50% entre 2003 e 2005.´Pressão PolíticaPolíticos com reduto eleitoral na região de Long Island têm feito pressão para que as autoridades americanas atuem para obter a liberação dos pilotos americanos e o seu retorno aos Estados Unidos.Em um comunicado enviado à BBC Brasil, o deputado Steve Israel afirmou ter ´indagado sobre a situação de Joseph Lepore e Jan Paldino (os pilotos do jato Legacy) junto ao consulado dos Estados Unidos no Brasil´.O texto afirma que ´no atual momento, nenhum deles sofreu qualquer acusação formal, mas a Embaixada dos Estados Unidos auxiliou para que eles obtivessem representação legal e segue monitorando a situação´. Israel conclui dizendo: ´Pretendo continuar acompanhando o caso de perto e espero que estes homens sigam sendo tratados de forma justa, de acordo com a lei brasileira e segundo acordos diplomáticos´.O presidente da Comissão de Segurança do Congresso Americano, Peter King, teria enviado uma carta à secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, pedindo que ela interceda para libertar os dois pilotos.

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