Ed Ferreira/AE
Ed Ferreira/AE

Aécio ''estreia'' na oposição com Serra na plateia

Pela 1ª vez na tribuna, senador ataca PT e Lula; para ele, há ''gastança descontrolada e desarranjo fiscal''

Christiane Samarco / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

O primeiro discurso político do senador Aécio Neves (PSDB-MG) ontem na tribuna do Senado durou exatos 25 minutos, mas mobilizou o plenário por cerca de quatro horas. Aécio, um dos nomes mais cotados da oposição para disputar o Palácio do Planalto em 2014, criticou particularmente o PT e a gestão Lula (2003-2010). Segundo ele, "entre os interesses do País e a conveniência do partido, o PT escolheu o PT".

Ele abriu o discurso, que se propunha a dar rumo à oposição, afirmando ser um "homem do diálogo que não confunde agressividade com firmeza nem adversário com inimigo". Mas foi duro nos ataques ao que nomeou de "desarranjo fiscal que penalizará investimentos anunciados com pompa e circunstância e à farra da gastança descontrolada", especialmente em ano eleitoral, que faz "renascer a crônica e grave doença da inflação".

O candidato tucano derrotado à Presidência José Serra acompanhou o discurso. Serra estava em Brasília desde anteontem e foi convidado pelo próprio Aécio para estar no Senado, o que provocou estranheza em parte dos tucanos, pois ambos disputam o poder no comando do partido. "Foi uma contribuição", limitou-se a comentar Serra ao final da fala do mineiro.

Dilma. Em vez de focar nos 100 dias do governo Dilma, Aécio preferiu tratar do conjunto da administração petista que inicia seu nono ano. Fez reparos à "subordinação de agências reguladoras ao governo", ao "aparelhamento e inchaço do Estado" e ao "governismo que avança sobre empresas privadas", citando a Vale. "Nada disso é interesse do País", disse. Especificamente sobre Dilma, afirmou ser "nítido e louvável o esforço da nova presidente em impor personalidade própria ao seu governo", mas ressaltou que se trata de um continuísmo da Era Lula. "Não há ruptura entre o velho e o novo, mas o continuísmo das graves contradições dos últimos anos."

O tucano cobrou iniciativa do governo em favor das grandes reformas, como a tributária, e propôs desonerar as empresas de saneamento e as contas de luz. Também falou em recompor as transferências federais para Estados e municípios e sugeriu a criação do sistema Simples Trabalhista, como forma mais eficiente de atender às demandas de micro e pequenas empresas do que a criação do ministério para o setor, como fez Dilma.

Choque de realidade. Aécio destacou também ser preciso enfrentar o "continuísmo das graves contradições". "Cessadas as paixões da disputa eleitoral, o Brasil precisa de um choque de realidade", afirmou. Para o ex-governador de Minas, a oposição à gestão Dilma deve se embasar em três pilares: "coragem, responsabilidade e ética".

O tucano fez questão de citar ações tomadas nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardozo, como a criação do Plano Real e da Lei de Responsabilidade Fiscal, frisando que tais medidas, que mudaram o rumo do País e da administração pública, não contaram com apoio do PT na ocasião.

Ele afirmou reconhecer avanços do governo Lula, mas provocou reações imediatas de petistas. Para adversários dos tucanos, o discurso nem de longe deu rumo à oposição. "Foi uma tentativa de organizar a oposição que ficou mais para um chá da tarde", disse a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Saia-justa. O discurso acabou colocando Serra na berlinda. Diante da firmeza do senador mineiro em defesa da herança de FHC, Serra, que exibiu Lula em seu programa eleitoral, foi cobrado por petistas. "Em 2002 e 2010 Serra não me pareceu muito convicto em defender o legado de FHC", afirmou Gleisi. Aflito com a citação sem direito a resposta, Serra chegou a acenar para o presidente José Sarney (PMDB-AP). O líder da bancada do PT, Humberto Costa (PE), elogiou o mineiro. "É o melhor quadro da oposição", disse.

TRECHOS

"Os que ainda não me conhecem bem e esperam encontrar em mim ataques pessoais no exercício da oposição vão se decepcionar. Não confundo agressividade com firmeza. Não confundo adversário com inimigo. Os que ainda não me conhecem bem e acham que vão encontrar em mim tolerância diante dos erros praticados pelo governo, também vão se decepcionar.

O PT nos governos de Itamar e Fernando Henrique

Para enfrentar a grave desorganização da vida econômica do país e a hiperinflação que penalizava de forma especial os mais pobres, o governo Itamar criou o Plano Real. Neste momento, o Brasil precisou de nós e nós estávamos lá. Os nossos adversários não.

Sob a liderança do presidente Fernando Henrique aprovamos a Lei de Responsabilidade Fiscal para proteger o País dos desmandos dos maus administradores. Nossos adversários votaram contra. E chegaram ao extremo de ir à Justiça contra essa saneadora medida, importante marco da moralidade administrativa do Brasil.

O PT no governo Lula

Sempre que precisou escolher entre os interesses do Brasil e a conveniência do partido, o PT escolheu o PT. Por isso, não é estranho a nós que setores do partido tentem, agora, convencer a todos de que os seus interesses são, na verdade, os interesses da nação. Nem sempre são. Não é interesse do País que o Poder Federal patrocine o grave aparelhamento e o inchaço do Estado brasileiro, como nunca antes se viu na nossa história.

Governo Dilma

Não ocupo essa tribuna para fazer uma análise dos primeiros meses do governo da presidente Dilma Rousseff. O processo de governança instalado à frente do País - com suas falhas, equívocos, mas também virtudes -, não conta apenas alguns dias. Pontua-se, de forma concreta, o início do nono ano de um mesmo governo. Quase uma década. Ainda que seja nítido e louvável o esforço da nova presidente em impor personalidade própria ao seu governo, tem prevalecido a lógica dominante em todo esse período e suas heranças. Não há ruptura entre o velho e o novo, mas o continuísmo das graves contradições dos últimos anos.

Situação econômica

O Brasil precisa, neste momento, de um choque de realidade. Um choque de realidade que nos permita compreender corretamente a situação do País hoje, e, essencial, que nos permita também compreendê-la dentro do mundo que nos cerca.

Escondido sob o biombo eleitoral montado, o desarranjo fiscal, tantas vezes por nós denunciado, exige agora um ajuste de grande monta que penalizará investimentos anunciados com pompa e circunstância. E não é bom para um partido inaugurar uma nova fase de governo sob a égide do não cumprimento de compromissos assumidos com a população (...)

Vemos, infelizmente, renascer, da farra da gastança descontrolada dos últimos anos, e em especial do ano eleitoral, a crônica e grave doença da inflação. Não há razão para otimismo quando comparamos a nossa situação com a de outros países".

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