Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

Aécio não é candidato natural, afirma tucano

Aloysio Nunes Ferreira, senador (PSDB-SP)

Julia Duailibi e Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

Com a disputa pelo controle do PSDB fervendo nos bastidores, o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) defende a presença do ex-governador José Serra na direção do partido e afirma que "não" há candidatura natural à Presidência da República.

"Não, tem de ser construída. Tem muitos nomes que podem vir a ser. Alckmin, acho eu, o próprio Serra", disse o senador, ao ser indagado se o colega Aécio Neves (MG) é o candidato natural do PSDB em 2014.

Aloysio criticou a coleta de assinaturas para reconduzir Sérgio Guerra à presidência da sigla, promovida há dez dias durante eleição para líder do PSDB na Câmara. "É um método odioso para qualquer tipo de indicação partidária, ainda mais para o presidente nacional do partido."

Como será a relação da oposição com o governo?

Uma grande parte da agenda do Congresso é determinada pelo Executivo. Tem havido um vazio na pauta do Congresso. É preciso que o governo venha com sua pauta. A presidente anunciou uma ideia, vaga ainda, de desoneração da folha trabalhista. Minha preocupação é que, ao invés de facilitar contratações, facilite demissões. Há sempre o risco de o recheio do bolo ser amargo. Quererem enfiar ali a volta da CPMF. Precisamos ficar atentos.

A oposição não aceita a volta da CPMF?

Sou contra. Disse isso na campanha. Agora há assuntos urgentes, como o salário mínimo.

O PSDB insistirá nos R$ 600 para o salário mínimo?

Foi a campanha eleitoral nossa. O PSDB tem obrigação política de defender essa posição.

Qual é a agenda da oposição?

O PSDB tem de fazer uma agenda com pontos que vão definir essa travessia do deserto durante os próximos quatro anos. Eu basicamente vejo educação e segurança. Um assunto que vou propor, sugestão de um eleitor, é incluir entre opções para saque do FGTS o financiamento de curso universitário.

O governo já deu indicativos de que promoverá um ajuste fiscal. A oposição apoiará?

A candidata Dilma repeliu a necessidade de ajuste fiscal na campanha. Depende do que for cortar. Somos a favor de corte de gastos inúteis, de empreguismo, inchaço da máquina. Agora, como faz corte e mantém projetos mirabolantes, como o trem-bala? Vai ter de escolher. Não basta fazer o discurso, não tem mais o poder encantatório do Lula para levar o povo na conversa. Agora é a dura realidade. Governar é pauleira, não é baba, como dizia o Lula.

Há espaço para votar uma reforma política que não seja só casuística, como a aprovação de uma janela de fidelidade partidária?

Muito difícil. Janela tem de fazer uma emenda constitucional para sacramentar a infidelidade ao eleitor, o que é um absurdo. Trata-se de colocar na Constituição o princípio de infidelidade ao eleitor. O princípio da escapadela. Sou a favor do voto distrital. Concentraria o esforço em torno do distrital, começando a introduzir nas cidades que têm segundo turno.

E o financiamento público?

Já tem muito. A ideia de que o financiamento público acaba com a corrupção política é ingênua. Político corrupto rouba para ficar rico, para pôr dinheiro no bolso. Se tiver financiamento público, vai ter financiamento do contribuinte e vai continuar existindo caixa 2.

Como viu o resultado da eleição para líder do DEM na Câmara, uma prévia da disputa para a presidência do partido?

Mostrou a força de um grupo. Mas nessa matéria sou favorável àquele axioma popular: cada macaco no seu galho.

Mas teve dedo tucano ali.

Cada macaco no seu galho.

Aliados de Serra reagiram contra o abaixo-assinado defendendo a recondução de Sérgio Guerra à presidência do partido.

Achei um erro. Um erro de metodologia e de timing, de processo. O método de colher assinaturas não se faz. É um método odioso para qualquer tipo de indicação partidária, ainda mais para o presidente nacional do partido. É sempre uma forma de constranger um colega, principalmente que está chegando.

José Serra quer a presidência do PSDB?

Serra deve estar presente na direção do partido. É um absurdo uma pessoa que tem o capital político que ele tem, o preparo, a visão política, a liderança (não estar na direção). Não tem cabimento. Tem de fazer parte. Se ele vai querer ser presidente, vai querer disputar, não sei. Ele nunca me disse isso.

Grande parte do PSDB apoia a recondução de Guerra.

Depois se viu que o acordo não era geral. Alckmin disse claramente, já havia dito para mim, que não poderia se discutir, que tem um tempo para discutir a presidência. Há todo o calendário eleitoral do partido, as convenções municipais e estaduais e a necessidade de debate partidário para definir o que vamos fazer. Então há um erro de tempo. E tempo no processo político é tudo. Foi realmente uma coisa desastrada, que não contribuiu para a unidade do partido, pelo contrário, levantou muita desconfiança. Foi ruim.

Por que Guerra fez isso? Teve apoio de ala ligada a Aécio Neves?

Não sei, tem de perguntar para ele. Foi uma coisa precipitada, vamos fazer rapidamente para criar um fato consumado. E isso não se faz. Foi um erro de um político talentoso como o Sérgio Guerra. Agora vamos ciscar para dentro. Não vou ficar remoendo esse episódio. O próprio Sérgio disse que agora é a realização de um debate interno e depois escolher a direção que seja mais apta a conduzir o processo.

Qual seria essa direção?

Uma direção que unifique o partido e faça oposição. E que integre no seu seio as principais figuras do partido. Se o Fernando Henrique pudesse vir, e se não fosse contraditório com a postura que adotou como ex-presidente, deveria vir. Tem de ter os melhores. Serra tem de estar dentro, evidentemente. Tasso (Jereissati), Sérgio (Guerra), (Alberto) Goldman.

Querem isolar Serra?

Não vejo esse desejo. Seria um contrassenso tão grande, o Serra tem força eleitoral, tem uma aliança sólida com o governador de São Paulo, acho que seria um contrassenso, um absurdo político, um erro político, que o PSDB não cometerá.

Aécio chegou ao Senado alçado a líder da oposição?

Evidentemente que o Aécio tem enorme projeção política, por sua trajetória e pela capacidade de articulação. É um homem cotado, poderá vir a ser candidato à Presidência, claro que tem toda credencial para ter uma grande projeção nacional, mas aqui nós somos todos iguais.

É natural a candidatura dele (Aécio) à Presidência?

Não, tem de ser construída. Tem muitos nomes que podem vir a ser. Alckmin, acho eu, o próprio Serra...

O sr. será candidato a prefeito em 2012?

Não sou candidato. Acabo de ser empossado senador. Meus móveis nem chegaram a meu gabinete. Nem escolhi a comissão temática da qual vou participar.

Gilberto Kassab será adversário do PSDB em 2014?

Ele nunca será meu adversário.

Mas e do Alckmin?

Todas as vezes que falei com ambos vi o desejo de caminharem juntos.

Mas ele flerta com o governo federal.

Governador e prefeito não brigam com o governo federal.

Não brigar não significa ficar amigo. Há uma articulação deliberada da presidente para enfraquecer o PSDB em SP.

O eleitor do Kassab é o mesmo que vota em Alckmin, Serra, em mim. E que gosta do Fernando Henrique. Você pode mudar de partido, mas mudar de eleitorado é muito difícil. Ainda que ele venha mudar de partido, a própria objetividade do perfil eleitoral dele o levará a caminhar conosco. Desde que, evidentemente, a gente também tenha do nosso lado a abertura e a vontade de colaborar que ele demonstrou conosco na eleição.

QUEM É

Ex-chefe da Casa Civil do governo José Serra em São Paulo, é formado em Direito. Esteve exilado na França de 1968 a 1979 por causa de ações contra a ditadura militar. Na volta do exílio, elegeu-se deputado estadual de 1983 a 1991, pelo PMDB. Foi líder dos governos Franco Montoro e Orestes Quércia na Assembleia. De 1991 a 1994, acumulou as funções de vice-governador e secretário dos Transportes Metropolitanos. Foi ministro da Secretaria-Geral da Presidência de 1999 a 2001 e ministro da Justiça, em 2001 e 2002, durante o governo FHC

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