Aeronáutica fez pente-fino em textos sigilosos

Documentos da ditadura militar passaram por filtro e só trazem frases elogiosas aos ex-presidentes Lula, FHC e também a Serra

Felipe Recondo, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

O mais recente lote de documentos produzidos pelo serviço de inteligência da Aeronáutica durante a ditadura militar e aberto a consulta na última terça-feira passou por um filtro antes de ser entregue ao Arquivo Nacional. Além de sinais de que folhas foram deliberadamente arrancadas, o lote de documentos traz informações que não indispõem a Aeronáutica com políticos que foram perseguidos no passado pelo governo militar, como José Serra e os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso.

As informações passadas pela Aeronáutica no ano passado, por exemplo, são elogiosas a Fernando Henrique. O relatório encaminhado nesse lote para o Arquivo Nacional, datado de 1994, descreve o então ministro da Fazenda como detentor de um "currículo invejável todo construído na esquerda e na oposição aos governos pós-1964".

O ex-governador José Serra (PSDB-SP) aparece apenas mencionado como então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), sem nenhuma crítica à sua militância. Sobre o ex-presidente Lula, a Aeronáutica encaminhou somente recortes de jornais datados da década de 80, relatos da participação dele em reuniões sindicais e informes com detalhes de negociações salariais. Vale ressaltar que os três foram espionados durante o regime militar.

Assepsia. Além desse tratamento burocrático dirigido a quem o governo militar perseguia na época, há papéis - nos mais de 50 mil documentos - que evidenciam essa filtragem do acervo. Um desses documentos, por exemplo, tem apenas uma página - que está grampeada e faz referência a outras informações que seguiriam anexadas. Essas outras folhas, no entanto, não foram entregues ao Arquivo Nacional.

Um dos informes difundidos pelo Centro de Segurança e Informação da Aeronáutica (Cisa) traria uma avaliação feita originariamente pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) das medidas adotadas para implementar o plano econômico do então presidente Fernando Collor. A única folha entregue diz apenas que seguiria anexado o documento com essas avaliações. Mas o texto não foi entregue.

A análise do acervo mostra que o teor principal dos documentos é o relato de atentados que seriam praticados por militantes de esquerda, como tentativas de sequestro e assassinatos de figuras centrais da política daquele período, como o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici e o então ministro da Justiça, Gama e Silva.

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