Afeganistão e mais 3 países ganham embaixada do Brasil

País terá representações na Bielo-Rússia, Bósnia-Herzegovina e Estônia; apenas neste ano, já foram criados 17 novos postos

Rafael Moraes Moura BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

A diplomacia brasileira, que não para de abrir embaixadas, mas com critérios discutíveis, vai chegar a destinos ainda mais exóticos. O governo decidiu instalar mais quatro novas embaixadas - uma delas no Afeganistão. Estônia, Bielo-Rússia e Bósnia-Herzegovina também vão ganhar representações do Brasil, conforme previsto em decretos publicados na edição de quinta-feira do Diário Oficial da União.

Só neste ano já foram criadas 17 embaixadas - a lista completa inclui Albânia, Mianmar, Nauru, Ilhas Fiji, Palau, Tuvalu, Samoa, Ilhas Salomão, Butão, Mônaco, Chipre, Nepal e Serra Leoa. Segundo o Itamaraty, o número de postos (embaixadas, missões, consulados e escritórios) passou de 155 para 223 durante o governo Lula.

O movimento, diz o Itamaraty, atende à "determinação do presidente Lula de ampliar a rede de postos" devido ao "caráter crescentemente global dos interesses brasileiros". Com isso, pretende-se ampliar comércio e investimentos, fortalecer o diálogo político e desenvolver projetos de cooperação.

No ano passado, o governo instalou embaixadas em países caribenhos, como Dominica e São Cristóvão e Névis. Uma das decisões mais controversas foi a abertura de uma embaixada na Coreia do Norte. Na época, justificou-se a iniciativa como uma forma de o País "contribuir" com uma eventual transição do regime comunista e atuar como "moderador internacional".

Críticas. Para o especialista José Augusto Guilhon de Albuquerque, do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), há um número exagerado de novas embaixadas. "O Brasil está se especializando em criar laços importantes com países que não mereciam essa legitimação", critica. "O Brasil não achou importante contribuir militarmente com o Afeganistão, que é um país ocupado por forças estrangeiras. O que vamos fazer lá? Ensinar democracia?"

Na opinião do professor Antônio Jorge Ramalho, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o Brasil atua no sentido de se firmar como um "global player" (ator global). "Tem um aspecto positivo, que é o de ocupar espaços, porque houve retração de países que exercem influência." Por outro lado, diz, falta uma definição sobre a melhor maneira de ocupar esses espaços. "O próximo governo terá de eleger prioridades e estabelecer foco mais claro na política externa."

Questionado sobre a abertura de novas embaixadas, o Itamaraty informou ao Estado que a Bielo-Rússia é "um dos principais produtores de potássio do mundo e a compra direta de fertilizantes bielo-russos em grandes volumes é tema estratégico".

Sobre a Bósnia-Herzegovina, afirmou que o país pode se tornar "centro de produção e distribuição dos produtos brasileiros", motivo semelhante ao que se atribui à criação de uma embaixada na Estônia. "O Brasil ainda não possui embaixada residente em nenhuma das ex-repúblicas bálticas da extinta União Soviética, o que é incompatível com a decisão de expandir a influência brasileira para além de sua vizinhança imediata", justificou.

Para o Itamaraty, a criação da embaixada no Afeganistão contribui para estimular "investimentos de empresas brasileiras em infraestrutura", "identificar oportunidades de mercado" e "apoiar esforços em prol da governança e do estado de direito".

Legitimação

ANTÔNIO JORGE RAMALHO PROFESSOR DA UNB

"Tem um aspecto positivo, que é o de ocupar espaços, porque houve retração de países que exercem influência, mas o próximo governo terá de eleger prioridades e estabelecer foco mais claro na política externa"

José Augusto Guilhon de Albuquerque

ESPECIALISTA DA USP

"O Brasil está se especializando em criar laços com países que não mereciam essa legitimação"

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