Aline Caetano/TJGO
Aline Caetano/TJGO

Agentes não controlam presídio onde assassinatos aconteceram, dizem detentos

Em vistoria feita em Aparecida de Goiânia após mortes no motim do dia 1º, presos falam que nem dormem por medo de brigas internas

O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 22h21

BRASÍLIA - Detentos do Presídio de Aparecida de Goiânia, em Goiás, onde nove pessoas foram assassinadas no dia 1º de janeiro, relataram a autoridades do Poder Judiciários e do Ministério Público que agentes não têm controle sobre a cadeia. Em vistoria determinada pela presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministra Carmen Lúcia, juízes e promotores ouviram de presos que esse controle pertence a internos das alas B e C, as que entraram em choque e cometeram os assassinatos nesta semana.

A inspeção foi realizada nesta quarta-feira, 3, e contou com a presença do presidente do Tribunal de Justiça de Goiás, desembargador Gilberto Marques filho, além do procurador-geral de Justiça, Benedito Torres Neto, do superintendente da Administração Penitenciária do Estado, coronel Edson Costa Araújo.  A informação foi adiantada nesta quarta-feira, 3, no blog da colunista do Eliane Cantanhêde.

O grupo ouviu dois grupos de presos para entender o ataque da segunda-feira passada. Três detentos da Ala C disseram desconhecer o motivo do ataque, mas reconheceram disputa entre as duas alas. Para as autoridades, eles não admitiram a existência de facções, e falaram em descontentamento com a superlotação do local, além da demora na análise de processos.

Outros três homens, dessa vez da Ala D, foram ouvidos pelo grupo. Eles confirmaram a tensão em razão da superlotação, falaram de problemas recorrentes da falta de água e energia. Sobre as mortes, narraram que  “tudo começou com a ala A atacando a ala B”. Disseram ainda que as duas alas “disputam o comando da cadeia e que há duas facções por trás, mas não as nominaram”.

Os detentos disseram que muitos colegas fugiram por medo ao escutarem tiros, mas “que muitos querem cumprir a pena”.  “Insistiram no medo e contaram que sequer conseguem dormir, pois não fazem parte de disputas, mas temem ser atacados a qualquer momento”, descreve o relatório da inspeção.

Ao serem questionados pelo coronel Edson sobre o tratamento dado aos presos, esse grupo disse não haver nada de anormal, “mas que os agentes  não conseguem dominar a cadeia, que é dominada por presos das alas B e C”. O encontro foi encerrado com a sugestão de realização de uma força-tarefa para audiências de análise de processos de presos. Uma comissão com integrantes do Judiciário, do MP e da Defensoria acompanhará a implementação da força-tarefa.

Reação. Em nota publicada no site da pasta, o coronel Edson Costa disse que os presos informaram ainda que “a rebelião é consequência da morte de Thiago César de Souza (conhecido como Thiago Topete), ocorrida em fevereiro do ano passado, ‘que desaguou em atos de vingança que foram perpetrados dentro do regime semiaberto’”. “Ouvimos os presos e chegamos à conclusão de que o que realmente aconteceu ali, principalmente, foi fruto de guerra entre grupos rivais”, disse em nota.

O superintendente informou que os serviços básicos dentro do complexo prisional de Aparecida, como o fornecimento de água e a alimentação aos presos seguem normalmente.  O oficial reconheceu que existem problemas estruturais que precisam ser resolvidos, e disse que “essa vistoria foi positiva para esse encaminhamento”, sem detalhar as ações específicas que serão tomadas. A pasta, em nota oficial, admite problemas estruturais e cobra “sensibilidade” do governo federal para obter mais recursos.

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