''''Agora é tentar levar vida normal''''

Priscila e Edson Cocchi, que anteontem ficaram 17 horas reféns de bandidos, passaram o dia arrumando a casa

Rodrigo Pereira e Gilberto Amendola, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2007 | 00h00

O casal Edson e Priscila Cocchi, respectivamente de 40 e 32 anos, voltou ontem para casa. Mas o cachorro morto no quintal, o cheiro de cigarro deixado pelos bandidos e os móveis destruídos na sala não os deixavam esquecer das mais de 17 horas em que ficaram reféns em sua própria residência, anteontem. Com a ajuda da família, os dois passaram o dia ontem arrumando a casa e dando entrevistas sobre o pavor de estar sob a mira do ex-presidiário Sidney Antônio de Oliveira, de 32 anos, da irmã dele, Rosângela Brito de Oliveira, de 27, e do detento foragido Fernando dos Santos Crestani, de 24."O Coelho (como Sidney era chamado pelos comparsas) mesmo disse que o que a gente passou aqui não esqueceria nunca mais", resume Priscila. "Dá vontade de ir embora, mas quem vai querer comprar a casa depois disso?" Ela conta que os bandidos amontoaram toda a mobília da casa "para fazer barricada". "Queriam impedir a invasão da polícia", diz. Nas portas, janelas e paredes, estão nove marcas de tiros que dispararam.Sócio de uma academia e professor de artes marciais, Edson queria dar aulas ainda ontem e pensar nos exames do curso de acupuntura. "Agora é tentar levar a vida normal." Ao contrário da mulher, ele não cogita sair do bairro. "Só mudaria de região. Todos os lugares são perigosos", justifica. Mestre em kung fu, Edson conta que não saía de sua cabeça reagir ao assalto. "Um deles chegou a dormir, mas minha mulher estava apavorada e preferi manter o diálogo." Ele chegou a ser amarrado de bruços na cama, porque, ao encontrar uma arma na casa e observar o porte físico e o corte de cabelo de Edson, Sidney desconfiou de que ele fosse policial.À sua maneira, Priscila também cogitou atacar os bandidos. Pensou em colocar veneno de rato no café servido ao grupo. "Mas primeiro fiquei com medo de que reconhecessem o sabor, ou me fizessem experimentar. Depois, senti peso na consciência. Como eu ficaria se de fato conseguisse matá-los?"A agitação e a virulência de Coelho, o líder do trio, foram alimentadas pela cocaína, consumida na cozinha da casa e que atemorizou ainda mais o casal. Outra agravante era o fato de o ex-presidiário não largar o telefone. Segundo Priscila, ele falou várias vezes com presidiários e moradores de uma favela vizinha, que passavam o número de policiais e suas posições em torno da casa. "Ele fez mais de 50 ligações. Em uma delas falou com a filha de 13 anos, que disse ter sofrido abuso do padrasto. Na seqüência, ligou e deu ordem para alguém matar o cara. Depois, ligou para uma pessoa dizendo que ia se entregar, mas passando nosso nome e endereço e falando que era para dar fim na gente se algo acontecesse a ele ou se não colaborássemos no tribunal", lembra Priscila.Para Edson, ele e a mulher estavam "no lugar e na hora errados". "O Coelho falava que tinha ido ?resolver uma coisa na favela?. Como não tinha conseguido nada, decidiu fazer um assalto."Ela conta ainda que se desesperou ao tentar pedir coletes à prova de balas à polícia e ouvir que o comandante não falaria com ela, só com os seqüestradores. "Me vinha à cabeça a imagem daquela mulher no Rio que morreu no seqüestro do ônibus 174 (em 2000). Ainda bem que aqui eles sabiam o que estavam fazendo."

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