Amanda Perobelli/ESTADÃO
Amanda Perobelli/ESTADÃO

'Agora somos bem-vindos aqui', diz refugiado cubano

Ele viajou para a Guiana e de lá, no Natal, entrou no Brasil e seguiu até SP

Marcelo Godoy e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2018 | 03h00

O sorriso é fácil e o celular não sai de sua mão. O aparelho é a primeira conquista feita por Lester – ele pediu para não ter o sobrenome identificado – com o suor de seu trabalho em São Paulo. Nascido em Varadero, perto de Havana, ele pediu refúgio ao Brasil em 25 de dezembro, dia em que cruzou a fronteira do País, em Roraima. 

“Saí de Cuba primeiro por razões políticas. Em Cuba não há liberdade, não se respeitam os direitos humanos e somente os chefes comunistas desfrutam de conforto e segurança. Além disso, o salário é uma miséria.” 

Lester trabalhava em um hotel de uma rede estrangeira. Podia, portanto, acrescentar ao salário o dinheiro que conseguia fazer por pequenos favores e bicos ligados ao setor de turismo. Nada que tornasse sua vida confortável, como a dos homens novos que aproveitaram a pequena abertura econômica para a propriedade privada propiciada nos últimos anos pelo Partido Comunista Cubano. 

Foram oito anos fazendo de tudo. De segurança a cozinheiro. Economizou trabalhando e, com um amigo, apanhou um avião para Georgetown, capital da Guiana. “Deixei minha família na Ilha. E tenho medo do que a G2 (polícia política cubana) pode fazer com eles.” 

No fim do ano passado subiu no avião que o levou para longe da Ilha. Fez em seguida o trajeto que sabia de cor desde que deixara a terra natal: apanhou um ônibus para Lethem, na fronteira com o Brasil. E por terra foi todo o trajeto seguinte – de Boa Vista a São Paulo. “Foram cinco dias de ônibus. Todos em Cuba que querem partir já sabem desse roteiro”, afirmou. 

O ajudante de cozinheiro chegou à capital paulista e foi até a Missão Paz, o abrigo para migrantes mantido pelos padres scalabrinianos no Glicério, na região central de São Paulo. O prédio que antes abrigou levas de migrantes nordestinos hoje serve a haitianos, senegaleses, congoleses e cubanos. Entre 2016 e 2017, 60 compatriotas de Lester procuraram ajuda ma missão. 

“Os primeiros a chegar vieram da República Dominicana. Depois, entraram pelo Equador, como os haitianos”, disse padre Paolo Parisi. Ali, o recém-chegado pode morar durante três meses enquanto procura um emprego, regulariza seus documentos e conhece a cidade. A equipe comandada pelo padre providencia documentos, cursos de português e faz a intermediação de emprego para os que buscam refúgio no País. 

Emprego. Lester imprimiu ali uma centena de currículos e foi entregá-los de hotel em hotel da cidade. Ninguém o chamou. Passou então para os restaurantes, até conseguir um lugar na Vila Nova Conceição, na zona sul. O salário é pouco, mas já permitiu ao cubano enviar à família que permaneceu na ilha R$ 150 nos dois últimos meses. A exemplo dos demais cubanos, a maioria procura ajudar suas famílias. 

Pouco depois de chegar a São Paulo, Lester ficou só. Seu amigo decidiu partir para o Uruguai. “As coisas não estão mais como eram no Chile e no Uruguai. Muitos iam para lá porque era mais fácil arrumar documentos, mas agora a situação está difícil nesses países.”

Nem ele nem seu amigo tinham qualquer relação com o programa Mais Médicos ou com qualquer outro acordo mantido pelo governo cubano com governos, como o venezuelano. “Aqui só recebemos um integrante do programa dos Mais Médicos”, contou o padre. 

Também são raras as mulheres que chegam da Ilha. Lester passa o fim de semana com seu celular no pátio do abrigo. “Estamos vindo para o Brasil porque aqui nos deixam trabalhar e ganhar e não nos mandam mais embora como Lula (o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) fez com Rigondeaux.” Lester se lembra da deportação para Cuba pelo governo petista do boxeador cubano Guilhermo Rigondeaux. Em 2007, ele desertou da equipe cubana que disputava o Panamericano do Rio. “Acho que agora os cubanos são bem-vindos aqui.”

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