Agricultor diz que não quer morrer sem ''papel''

Famílias lutam por reconhecimento de propriedade do Quilombo do Jaó

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2010 | 00h00

O agricultor Diniz Estevão de Lima vai fazer 71 anos em dezembro e não quer morrer antes de ver "o papel escrito" dos 166 hectares que seus filhos, netos e parentes ocupam no Quilombo do Jaó, na zona rural de Itapeva, a 285 km de São Paulo. "A saúde está boa, mas nunca se sabe... O tempo vai passando e o documento não sai", reclama.

Muito antes da Constituição de 1988, as famílias descendentes de escravos já lutavam pelo reconhecimento de sua propriedade sobre aquele "capão de terra" deixado como herança pelo casal Joaquim Carneiro de Camargo e Josepha Paula Lima. Eles eram escravos do fazendeiro Honorato Carneiro de Camargo, que adotou Joaquim como filho e deu a ele as terras conhecidas como Sítio da Ponte Alta.

Lima sabe por ouvir dizer que a doação foi feita logo depois da abolição da escravatura, em 1888. "Quem sabia bem de tudo isso era meu cunhado Hilário, mas, coitado, não aguentou esperar."

Hilário Martins morreu há cinco anos, não sem antes ter conseguido que a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) reconhecesse a comunidade quilombola. Durante décadas, ele impediu que os familiares - eram todos parentes, ali - vendessem as terras para os fazendeiros da região. Chegou a brigar quando um fazendeiro começou a soltar o gado na área "dos pretos". "Ele nunca deixou que as famílias se dispersassem. Houve diferenças internas, mas todos ficaram por aqui", conta Diniz.

O relatório técnico-científico com a identificação do território quilombola saiu em 2000. Na época, eram 63 famílias. Hoje, são 85, num total de 460 pessoas. As casas, a maioria de tábuas ou de barro, embora algumas já sejam de alvenaria, se concentram nas proximidades da estrada vicinal que liga as fazendas do entorno a Itapeva. O núcleo tem uma escola, com ensino até a 8.ª série, um posto de saúde e dois galpões - um para atividades, o outro para a produção agrícola.

Diniz mora numa casa de tábuas com a mulher Floriza, de 66 anos, e uma cunhada. As casas dos dois filhos, também de tábuas, são vizinhas. Numa mora Orlei, de 32 anos, com a mulher e o casal de filhos; na outra, Orlando, a mulher e seus dois meninos. "Os garotos do Orlei já estão na escola", conta o avô. Ele diz que os filhos, "iludidos pela promessa da terra" não quiseram sair do Jaó. Os dois trabalham como boias-frias em fazendas próximas, como a maioria dos homens do quilombo. A comunidade está cercada por grandes fazendas de gado, grãos e laranja, além de reflorestamento de pinus. "Dizem que a terra aqui vale muito, mas para nós não tem preço", afirma Diniz. Ele mesmo deixou a comunidade aos 18 anos para estudar em Itapeva. "Não sabia nem ler, nem escrever. Trabalhava de servente de pedreiro de dia e estudava de noite." Foi só aprender a ler e voltou para casa.

Hoje, ele considera boa a vida no quilombo. "Tem água de poço, encanada, energia elétrica, tem médico duas vezes por semana. A gente planta arroz, milho, feijão, cria umas galinhas, uns porcos. Só falta um pouco de chuva", diz, de olho no céu sem nuvens.

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