AIB financiou a ''nata da política''

Nas eleições passadas, entidade investiu em candidatos conhecidos, sobretudo do eixo Rio-SP

Bruno Tavares e Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

Alvo maior da investida do Ministério Público Eleitoral contra doações irregulares nas eleições de 2008, a Associação Imobiliária Brasileira (AIB) beneficiou a nata da política nacional nas campanhas de 2002, 2004 e 2006. Nomes como Antonio Palocci, Aloysio Nunes Ferreira Filho, Romeu Tuma, Michel Temer, José Serra, Rodrigo Garcia, Marta Suplicy, Ruy Falcão e Denise Frossard receberam dinheiro da AIB, que age como braço do Secovi (sindicato da habitação), segundo o promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes. Nos repasses, a AIB nunca escolheu políticos desconhecidos, conforme mostram registros do Tribunal Superior Eleitoral. As investigações atuais não abrangem doações anteriores a 2008, mas, em 2006, por exemplo, a AIB já havia doado R$ 2,2 milhões para candidatos paulistas e cariocas a cadeiras no Congresso Nacional e nas Assembleias. Entre os beneficiados está o secretário municipal de Esportes, Walter Feldman (PSDB). Ele recebeu R$ 400 mil para campanha a deputado federal, em 2006 - a maior doação a um paulista. Em 2002, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi agraciado com R$ 50 mil.No Rio, a maior doação, também de R$ 400 mil, foi feita a Alfredo Sirkis (PV), derrotado ao Senado. Outros políticos e o comitê financeiro do PV estão entre os maiores receptores. Nas eleições de 2008, receberam R$ 1,3 milhão. Em São Paulo, o PV controla a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, responsável por emitir licenças para construção de empreendimentos perto de mananciais. Em 2002, o candidato a senador Romeu Tuma (PTB-SP) venceu com ajuda de R$ 30 mil da AIB. Em 2004, a entidade beneficiou candidatos que se reelegeram na Câmara Municipal, como o tucano Dalton Silvano (R$ 10 mil), o petista Arselino Tatto (R$ 30 mil) e o democrata Domingos Dissei (R$ 17 mil). Os políticos beneficiados argumentam ter recebido os valores de forma legítima, com declaração à Justiça e aprovação de contas. O presidente da AIB, Sérgio Ferrador, afirmou na segunda-feira que as doações priorizam políticos que participam de discussões urbanísticas. MALHA FINAEmbora a AIB não tenha balanços patrimoniais, a Justiça Eleitoral só encontrou os primeiros indícios de irregularidades em 2006, após pente fino da Receita. Os órgãos cruzaram dados fiscais dos doadores de 2006 com o que eles declararam ter direcionado a candidatos e identificaram 18,3 mil pessoas físicas e jurídicas que fizeram doações em desacordo com a lei, em um total de R$ 328 milhões. Em 2006, a AIB declarou ter doado R$ 2,36 milhões, valor que saltou para R$ 10,675 milhões em 2008. "O crescimento se deu justamente no período do boom imobiliário", argumentou Ferrador. No início deste ano, as doações da AIB à comissão da Câmara que conduziu os projetos municipais de concessões urbanísticas passaram a ser alvo de investigação do MP. O caso foi revelado pelo Jornal da Tarde, no dia 3 de março. Os trabalhos da promotoria culminaram em representação que recomenda à Justiça a reprovação das contas de 29 dos 55 vereadores que receberam doações da AIB. Por causa das denúncias, há dois dias os trabalhos na Câmara seguem paralisados. Ontem, com apenas 16 vereadores, não houve quorum para discutir o projeto substitutivo do governo que prevê as diretrizes climáticas para os próximos cinco anos.

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