Ainda não se sabe quem são os 107 mortos pela polícia

Na semana em que o medo tomou conta dos paulistanos, desde o início da onda de violência atribuída à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), a polícia de São Paulo matou mais pessoas que no último trimestre de 2005. Desde o dia 12, 107 pessoas foram mortas pela polícia. Nos últimos três meses de 2005, o número ficou em 65 mortos. A média diária de homicídios praticados pela polícia depois dos ataques é 21 vezes maior do que a média do ano passado. Desde o começo dos ataques, os dois Institutos Médico Legais da capital receberam 85 corpos de pessoas mortas pela policia nas ações de reação aos ataques do PCC. Destes mortos, 64 já foram reconhecidos e enterrados por suas famílias. Dos outros 21, quatro foram identificados, mas as famílias ainda não foram reclamar os corpos. Se isso não acontecer em até 72 horas, ou até que todos os corpos sejam identificados, essas vítimas podem ser enterradas como indigentes. Para os corpos que ainda estão sem identificação, será feito o reconhecimento a partir das digitais.O governo de São Paulo ainda não divulgou uma lista com o nomes dos mortos pela polícia. Na quarta-feira, 17, em meio a denúncias de execuções e de que inocentes estariam sendo mortos, o governador Claudio Lembo afirmou que a divulgação da lista com os nomes das vítimas deveria ocorrer em breve. "Pedi ontem (terça-feira) que houvesse um trabalho o mais rápido possível."Segundo números oficiais da Secretaria de Segurança Pública, 107 pessoas foram mortas pela polícia desde o início da maior onda de ataques e rebeliões comandada pela facção criminosa, motivada pela transferência de líderes e membros da facção presos. Ao todo, a crise deixou 170 pessoas mortas, entre supostos agressores, presos, policiais e civis.AtaquesA ofensiva foi deflagrada pelo PCC depois que as autoridades transferiram seus líderes para a carceragem do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), em São Paulo, e cerca de 760 presos ligados à organização criminosa para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. A transferência foi feita justamente porque o governo estadual descobriu que o PCC planejava uma megarrebelião para este final de semana, aproveitando o Dia das Mães.Desde a noite de sexta-feira, a SSP contabilizou 293 ataques. Destes, 82 são de ônibus incendiados e 17 agências bancárias e caixas eletrônicos destruídos. Os outros 136 ataques foram a carros e bases da polícia, entre outras instalações da segurança. A estação do metrô Arthur Alvim também foi alvo de ataque, assim como uma garagem de ônibus e um veículo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Além disso, as casas de 56 policiais também foram atacadas. De folgaSete policiais civis e 14 dos 23 militares assassinados estavam de folga. Apenas 9 PMs e 3 guardas-civis estavam trabalhando quando foram mortos nos ataques. O número oficial de mortes ocorridas nas ruas do Estado, desde a noite de sexta-feira, é 152. Esses números não incluem os 18 presos mortos nas 87 rebeliões ocorridas em penitenciárias, CDPs e cadeias do Estado. As vítimas, portanto, chegam a 161. Ao todo, foram 107 suspeitos mortos, 30 policiais, 3 guardas municipais e 8 agentes penitenciários, além de 4 civis sem ligação com a polícia ou com o crime. Pelo menos 351 pessoas foram feitas reféns nas rebeliões. Durante o último fim de semana, mais de 60 penitenciárias chegaram a ficar rebeladas ao mesmo tempo, na maior rebelião da história do País.Mas nem todos os ataques podem ter sido ordenados pelo PCC. Na tarde de quarta-feira, 17, um homem foi preso em flagrante por atear fogo a um ônibus da Viação Sambaíba, no Jardim Japão, zona norte da cidade. À polícia, ele disse que agiu a mando de uma cooperativa de perueiros. Rodrigo de Melo Faria, de 20 anos, receberia R$ 1 mil a cada veículo incendiado. Ele planejava fazer mais dois ataques.Nesta sexta-feira, foram registrados mais dois ataques. Um ônibus foi incendiado em Campinas e um quartel da Guarda Civil foi atacado em São Roque. Um homem morreu durante um tiroteio com a polícia em Ribeirão Preto, em uma blitz realizada na cidade. Não se sabe a relação destes casos com a onda de violência organizada pela PCC.Cidada acuada pelo medoNa segunda-feira, o medo de que as ações da organização criminosa se alastrasse ainda mais provocou o caos na capital. Os ataques ao longo do dia provocaram a paralisação do serviço em várias regiões da cidade. O temor se estendeu ao comércio, que fechou as portas mais cedo. No meio da tarde, a cidade viveu um horário de pico antecipado, com milhões de pessoas tentando voltar para casa num volume jamais visto nem mesmo nos piores dias de trânsito. Os congestionamentos se estenderam por toda a cidade. Os ônibus que circulavam eram insuficientes para o número de pessoas e ficaram lotados. Táxis vazios viraram um artigo raro. Com a debandada, um toque de recolher informal, a cidade ficou deserta. Às 21 horas, o movimento de ruas e avenidas era o equivalente das madrugadas de clima frio.Mas, ainda na segunda-feira, o PCC determinou o fim das rebeliões nos presídios do Estado e a suspensão dos atentados a quartéis, delegacias policiais, fóruns, agências bancárias, ônibus e estações do metrô. A ordem teria sido dada após uma longa conversa, no domingo, entre o líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, a advogada Iracema Vasciaveo, o corregedor da Administração Penitenciária, Antonio Ruiz Lopes, o delegado José Luiz Ramos Cavalcante e o coronel Ailton Araújo Brandão, chefe do Comando de Policiamento do Interior da região de Presidente Prudente. AcordoO governo nega que tenha havido acordo com Marcola. Mas detalhes da reunião foram confirmados pelo secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa. "Era para transmitir para pessoas fora daqui uma notícia que levaria ao fim dos atentados e rebeliões." A notícia que seria passada era a de que Marcola estava bem. A advogada, ligada à entidade Nova Ordem - que trabalha na ressocialização de detentos - também negou o acordo. "Foi uma demonstração de boa vontade (do governo)", disse, em referência ao atendimento rápido do seu pedido para ver Marcola e mais sete líderes do PCC - feito no sábado pela manhã. Iracema disse que pediu a visita atendendo a parentes dos presos. Furukawa autorizou o encontro. "Não fiz nada que envergonhe o povo de São Paulo." Um preso como Marcola, internado no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) não pode receber visitas e a entrada do advogado - Iracema não é representante legal do líder do PCC - tem de ser marcada com até dez dias de antecedência. Na terça-feira, o governador Claudio Lembro confirmou que autorizou a visita da advogada a Marcola, mas negou o acordo. "Eu autorizei a visita dela. Ela foi levada em um avião da Polícia Militar até o presídio de Presidente Bernardes, falou com seu cliente, que é esse senhor Marcola, e retornou. (...) Não houve acordo nenhum", disse Lembo.A ordem para o fim dos atentados foi propagada na manhã de segunda, por telefone celular, menos de 12 horas depois do encontro nas dependências do Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes, onde Marcola está detido desde o fim da tarde de sábado, 13.O Diretor do Departamento Estadual de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), o delegado Godofredo Bittencourt, negou que a cúpula da Secretaria da Segurança Pública ou da Secretaria de Administração Penitenciária tenha negociado uma trégua com a liderança da facção. "Não tem negociação nenhuma com bandido", disse.

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