Airbus recebeu 38 alertas só neste ano

Notificações técnicas da agência europeia de segurança da aviação são enviadas sempre que há riscos à operação

Bruno Tavares, Eduardo Reina e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Os aviões da fabricante francesa Airbus foram os que mais receberam notificações técnicas mandatórias da Agência Europeia para a Segurança da Aviação (Easa, na sigla em inglês) neste ano. Ao todo, ocorreram 38 avisos, ante 22 da Boeing, 20 da Bombardier, 11 da Fokker e 9 da Embraer. Conhecidos pelo termo Continuing Airworthiness Information (ou Informação Contínua de Aeronavegabilidade, em tradução livre), esses avisos têm caráter preventivo e são emitidos todas as vezes que as agências reguladoras de aviação civil consideram que determinada configuração das aeronaves oferece riscos à operação. Entre as notificações emergenciais deste ano, a Easa aponta inúmeros problemas nos projetos das aeronaves da família A300, A310, A330, A340, A380, A318, A319, A320 e A321 - entre os aparentemente mais graves estão risco de explosão do tanque de combustível, desgaste de uma solda entre a fuselagem e a asa, desgaste excessivo da estrutura que sustenta as turbinas, fissuras nas barras cruzadas da bequilha (trem de pouso dianteiro), falhas e fissuras em uma das haste dos trens de pouso, falhas nos computadores de bordo e vazamento hidráulico do sistema de controle dos pneus. Os dados para a elaboração das notas técnicas são extraídos tanto de investigações de acidentes pelo mundo quanto do processo natural de desenvolvimento dos modelos dentro das fábricas.Para o levantamento, o Estado compilou e analisou as 145 notificações mandatórias emitidas pela Easa em 2009 para as maiores fabricantes de aeronaves, motores e dispositivos eletrônicos (aviônicos). Comparando o número de aparelhos das duas maiores empresas do setor, a Airbus e a americana Boeing, a discrepância se revela ainda maior. A companhia francesa tem atualmente 3.948 aeronaves em operação, enquanto a Boeing conta com 15.840 - o que representa uma taxa de 9,6 avisos da Easa para cada mil aeronaves da Airbus, ante 1,4 aviso para cada mil aviões da Boeing.De acordo com o especialista em aviação Respício do Espírito Santo, do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo (Cepta), os números não significam que um Airbus seja mais inseguro do que seus pares - mas que, sim, ele é mais complexo. "Na minha opinião, as aeronaves da Airbus têm sistemas intrincados", conta. "A própria engenharia de sistema é mais pesada do que a do Boeing e, com isso, há mais variáveis. A filosofia das duas empresas são muito diferentes, a Boeing está atrás de aeronaves menores que façam um trajeto mais vezes, enquanto a Airbus lança aviões cada vez maiores, para transportar mais gente de uma única vez. São modelos bem diferentes de negócio, diferentes concepções."Além desses pontos, a maior diferença entre os sistemas da Airbus e da Boeing reside no grau de automação dos procedimentos de voo. A empresa francesa constrói seus aviões sob a plataforma popularmente conhecida como fly-by-wire (controle computadorizado de voo). A premissa básica desse mecanismo é propiciar um voo seguro, a ponto de os computadores "assumirem" o comando caso algo saia do script ou algum parâmetro preestabelecido seja desrespeitado.DIFERENÇASPilotos com mais tempo de serviço costumam dizer que os Boeings são mais "confiáveis" para pilotar porque não há tanta dependência do que chamam de "exército de computadores". Já os comandantes de novas gerações, mais acostumados com o rápido desenvolvimento no campo da informática, tendem a se sentir mais tranquilos a bordo de um Airbus. A expressão corrente entre aviadores de todo o mundo diz que "Boeings são aviões feitos por pilotos para pilotos, enquanto os Airbus são aeronaves feitos por engenheiros para pilotos".Junto a essas preferências está ainda uma enorme disputa de mercados - atualmente, o avião mais popular da Airbus, o A320, supera a aeronave mais popular da Boeing, o 737, em número de encomendas. Uma das razões para isso está justamente na diferença tecnológica entre os dois modelos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.