Albergues viram consultórios

Psicólogos voluntários ajudam no atendimento

Ângela Bastos, Ilhota, O Estadao de S.Paulo

08 de dezembro de 2008 | 00h00

Nos abrigos, uma simples conversa vira consulta. A abordagem é feita às claras, sem reservas, às vezes em grupos. Pode ser nas mesas do refeitório, nos bancos dos corredores, durante o preparo dos alimentos. As pessoas, independente da idade, querem falar. "É hora de escutar, tocar na mão, abraçar, se for o caso ajudar a secar as lágrimas. É um momento em que não se tem muito o que dizer", explica a psicóloga Rosane Voltolini, especialista em Saúde Mental Coletiva. Rosane é voluntária em Ilhota, cidade onde sua irmã é assistente social. Ela reconhece que o desejo das vítimas em "colocar para fora" o que ocorreu faz parte de um processo que "rompe" com o senso comum: de que os germânicos são mais reservados, com mais dificuldade em falar de seus problemas. Agora, diz, precisam exteriorizar.As crianças também não estão alheias ao que aconteceu. "Mãe, não quero mais casa nova. Toda vez que vocês fazem ela cai." Foi Pâmela Reichert, de 6 anos, quem disse à mãe, Maristela Reichert, de 26. No começo do ano, os Reichert, que moravam no Alto Braço do Baú, afastaram-se do perigo. Tinham construído uma casa próxima do morro. Acreditavam que, com a mudança de lugar, estariam seguros. Não fosse terem abandonado a casa, fugido para o mato e mais tarde resgatados, poderiam ter o mesmo destino de dez familiares de Maristela - morreram todos.No começo da semana, Pâmela saiu-se com outra pergunta: "Mãe, já está perto do Natal?" Maristela acredita que a filha esteja perdida no tempo. Talvez porque tenha ficado sem um importante referencial, a formatura no pré-escolar. Estava tudo pronto. A confraternização encerraria o ano letivo. Depois, viriam o Natal e as férias. Às vezes, o abrigo parece uma espécie de Colônia de Férias. Colchões espalhados pelo chão, sala de brinquedos, comida no refeitório, equipes que cuidam da limpeza. Maristela, mãe também de um menino de 11 anos, procura responder a todas as perguntas das crianças. Mas receia que uma indagação fique sem resposta: o paradeiro de uma sobrinha, soterrada na avalanche de terra. A criança ainda não foi localizada.

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