Sergio Castro/AE
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Alckmin assume com elogios a Serra e FHC

Com afagos, governador tenta apaziguar ânimos entre tucanos e promete ter ''a melhor das relações com o governo federal''

Roberto Almeida, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

Em tom conciliador, o novo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), discursou ontem pela primeira vez como líder do governo paulista e fez referências elogiosas ao ex-mandatário, José Serra, e ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Alckmin tomou posse pela manhã, na Assembleia Legislativa de São Paulo e, posteriormente, no Palácio dos Bandeirantes. É o terceiro mandato do tucano à frente do Estado.

Serra e FHC compareceram à cerimônia no palácio. Na semana passada, eles mostraram-se insatisfeitos com decisões internas da transição alckmista, especialmente a que ocasionou a saída do ex-secretário da Educação, Paulo Renato Souza. O ex-presidente havia pedido pessoalmente a Alckmin que o mantivesse no cargo, o que não aconteceu. Para essa ala tucana, o novo governador vinha tomando decisões "personalistas".

Para debelar o imbróglio, Alckmin destacou a biografia de Serra diante de cerca de 3 mil pessoas, no auditório do Palácio dos Bandeirantes. Ele afirmou que para "maior sorte de São Paulo" Serra dedicou ao governo do Estado "as mesmas características que marcaram sua atuação parlamentar".

"O brilho de sua inteligência, a consistência do seu pensamento, sua criatividade e enorme capacidade de trabalho, além do inarredável compromisso com a ética fizeram também dele uma grande liderança nacional", anotou o novo governador.

O movimento de Alckmin em sua posse, porém, destoou da última transmissão de cargo, há quatro anos, no mesmo Palácio dos Bandeirantes. Em 2007, Serra, que assumia o cargo no lugar de Alckmin, declarou que faria uma faxina nas contas do governo - o que causou visível constrangimento e acentuou as diferenças entre as alas tucanas.

Para reforçar os afagos, e na contramão de 2007, Alckmin declarou ontem que a "boa situação econômica" de São Paulo é "reflexo da competência de José Serra e Alberto Goldman". "Esse ativismo (na gestão fiscal) se traduzirá no avanço das obras de logística e de infraestrutura", acrescentou o tucano.

Sobre FHC, por sua vez, Alckmin disse que era preciso deixar a modéstia de lado. "Ele mudou o Brasil", bradou para a plateia, no único momento em que saiu do script definido.

Em seguida, ele continuou: "Nunca é demais ressaltar os méritos do presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo governo assentou, de uma vez para sempre, as bases políticas e econômicas para o desenvolvimento do Brasil."

Relação com Dilma. Em consonância com seu tom de oposição "light" à presidente Dilma Rousseff, Alckmin disse ontem em seu discurso no Palácio dos Bandeirantes que terá "a melhor das relações" com o governo federal. Em contrapartida, manteve o pedido de recursos a fundo perdido para o Estado.

"Vamos colaborar, vamos trabalhar para que o Brasil cresça e ocupe seu devido lugar. Mas isso sem esquecer de trabalhar e reivindicar tudo o que São Paulo precisa do governo federal, lutando por aquilo que é de direito do povo paulista", emendou o novo governador.

Alckmin faz referências a financiamentos para trem, metrô e aeroportos, entre outras obras de infraestrutura que considera imprescindíveis para solucionar gargalos. Um deles é o estouro de gastos na área da saúde, que subiu 22% relação aos gastos de 2009, atingindo R$ 12,5 bilhões.

"Pelo bem do Brasil, unidos com o governo federal, com os demais estados e com os municípios paulistas, trabalharemos mais quatro anos ancorados nos mesmos princípios que nortearam os 16 anos dos governos anteriores", afirmou o novo governador de São Paulo.

Foco social. Mais cedo, antes de receber o cargo no Palácio dos Bandeirantes, Alckmin pediu uma "oposição responsável" e adotou fraseado socia ao discursar na Assembleial. Disse que vai trabalhar "intensamente" em nome dos "mais humildes".

"Vou trabalhar pensando no operário que madruga, em pé, nos pontos de ônibus, e que só noite alta volta ao lar, à sua família. Vou trabalhar com a mente e o coração voltados à trabalhadora que deixa os filhos em casa", disse. "Nenhum paulista será deixado para trás", ressaltou o novo governador. Alckmin encerrou o discurso elogiando a imprensa e pediu fiscalização de seu governo. "Prestar contas dos atos da administração, mais do que uma obrigação legal, é um imperativo ético", disse.

TRECHOS DOS DISCURSOS

Vamos ter com a presidente Dilma a melhor das relações...

... Permitam-me falar de José Serra... ele trouxe ao governo do Estado as mesmas características que marcaram sua atuação parlamentar... O brilho da sua inteligência, a consistência do seu pensamento, sua criatividade e enorme capacidade de trabalho, além do inarredável compromisso com a ética fizeram também dele uma grande liderança nacional...

... Volto ao governo na condição de construtor e, ao mesmo tempo, de herdeiro de um modelo de gestão consolidado ao longo das diversas experiências administrativas que o PSDB teve em nosso país, fruto da confiança e colaboração do nosso povo...

... Vamos ativar, por todo o estado, a capacidade empreendedora dos brasileiros de São Paulo. Vamos dar incentivos, crédito, segurança jurídica. Vamos promover a desburocratização, o treinamento e a qualificação dos trabalhadores. E, mais que esperança, vamos dar todo empenho à construção de um futuro mais próspero para todos os paulistas...

... O trabalho que temos pela frente é enorme. Mas é inesgotável nossa disposição de empreendê-lo - a cada dia, a cada hora, a cada minuto dos próximos quatro anos...

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