Epitácio Pessoa/AE
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Alckmin diz que SP vai ajudar Dilma, mas vê um PSDB ''fiscalizador''

Pela terceira vez no cargo, governador prega uma oposição que analise a gestão da nova presidente ''área por área'' e quer fazer gestão ''social'' no Estado para rivalizar com PT

Roberto Almeida, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

A mudança mais visível no gabinete do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), em relação à gestão de seus antecessores diretos no Palácio dos Bandeirantes - José Serra e Alberto Goldman - foi a instalação de um retrato pintado a óleo por Antonio Rocco, na década de 1910, com a imagem de Rodrigues Alves sentado à mesa de trabalho. Alves, nascido em Guaratinguetá (SP), terra natal da família de Alckmin, foi o último paulista a assumir a Presidência, em 1902.

O tucano diverte-se ao contar a história do ex-governador e ex-presidente, mas se esquiva sobre a disputa presidencial de 2014 e sobre tentar novamente ser o próximo paulista depois de Alves no comando do País (Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio). Até lá, no entanto, Alckmin enfocará a "questão social" em sua gestão, na busca de uma "marca" do PSDB na área historicamente dominada pelo PT.

Durante a transição, o novo governador explicitou divergências em relação a Serra ao escolher aliados próximos para o secretariado. Seu novo foco, agora, tenta afastar as derrotas do PSDB para o PT nas disputas pela Presidência em 2002 com Serra, dele próprio em 2006 e novamente em 2010 com Serra, nas quais o discurso social de Luiz Inácio Lula da Silva fez a diferença.

Alckmin diz que seu partido deve fazer uma "oposição diferenciada" a Dilma Rousseff, esquadrinhando área por área o governo federal com a criação de um shadow cabinet - conceito inglês de grupo de líderes da oposição designados para fiscalizar o governo. Contudo, recém-empossado à frente do Estado mais rico da União pela terceira vez, diz que será "colaborador" da presidente. "Quem é governo é para governar e não para fazer oposição."

Após 16 anos de PSDB no Estado, o que esperar de novo?

Os princípios e valores não mudam. Esses são permanentes. Vêm desde o Mário Covas. A austeridade, a transparência, a eficiência, a prioridade ao social. O programa, este sim, muda, porque estamos em um novo momento. E eu destacaria a absoluta questão do foco no ser humano, na questão social.

O sr. iniciou o governo com corte de gastos. A máquina não está ajustada?

Eu recebi um governo em boa situação financeira, bem ajustado. O José Serra (2007-2010) fez uma grande gestão em São Paulo e quero manter o mesmo nível de investimento, que foi alto.

O Orçamento mostrou uma queda de 6,5% nos investimentos para 2011.

Porque foram vendidos ativos nestes últimos anos de R$ 16 bilhões. Não tem ativos para vender. Para manter o investimento elevado que nós queremos manter, temos de trabalhar no lado da despesa, procurando fazer ajuste. Um trabalho interminável.

O sr. rechaçou o termo "auditoria" e disse que contratos não serão revisados. Mas secretários dizem que farão revisões.

Não tem nenhuma auditoria. Vamos procurar permanentemente ter uma melhor aplicação do recurso público. O governo gasta R$ 135 milhões de aluguel por ano. E alguns aluguéis em áreas onde o valor é mais alto. O que eu fiz quando fui governador? Vamos para o centro de São Paulo. Esse é um exemplo, que vamos fazer em outras áreas. Temos hoje 172 mil presos no Estado de São Paulo. Como podemos reduzir os custos de alimentação? Eles (secretários Antonio Ferreira Pinto, da Segurança Pública, e Lourival Gomes, da Administração Penitenciária) disseram: "Temos experiência do governo Serra." Aqui na penitenciária do Estado, em vez de comprar a quentinha da empresa lá fora, terceirizamos a cozinha dentro da prisão. Conseguimos reduzir de R$ 9 para R$ 4,5 a refeição.

O ajuste não pode ser encarado como um revanchismo em relação a Serra?

Imagine. Experiências muito bem-sucedidas que Serra teve - dei um exemplo, mas tem "n" exemplos - vamos fazer com que elas se multipliquem no Estado. Vamos fazer isso por convicção e por necessidade.

O sr. terá encontros com Vicente Falconi, do Instituto de Desenvolvimento Gerencial, e com Antonio Anastasia, governador de Minas. Pretende fazer um "choque de gestão", como o de Aécio Neves naquele Estado?

Não tem nada a ver o encontro do Vicente Falconi (consultor próximo do PSDB mineiro) com o Anastasia. Nós já tivemos um encontro dos oito governadores do PSDB em Alagoas, lá em Maceió, com o Teotônio Vilela. O PSDB tem hoje o maior número de governadores do País. Essa troca de experiências entre nós é muito positiva. E pode ser uma marca importante. O PSDB deve, cada vez mais, ter uma marca social forte.

O sr. fala em gestão por metas. Pode dar um exemplo?

Precisamos ver o que ela vai beneficiar a população. Especialmente a população mais pobre. Estamos fazendo um trabalho que vai ser explicitado no Plano Plurianual para estabelecer as nossas metas.

O secretário Paulo Barbosa (Assistência Social) disse que vai procurar o governo federal para mapear a pobreza no Estado. Haverá mudança no programa de transferência de renda?

Poderá ter. Nós queremos erradicar a pobreza extrema. Temos hoje perto de 350 mil famílias, vamos falar aí de 1,2 milhão de pessoas. Vamos identificar todas essas famílias e trabalhar com as prefeituras, o governo do Estado, o governo federal, no sentido de erradicarmos a miséria.

Os programas de transferência de renda podem aumentar?

Sim, se houver necessidade.

O PMDB, mesmo com apoio, ficou de fora do primeiro escalão do seu governo. Isso será reavaliado?

Quero destacar o quanto foi importante o apoio do PMDB no Estado de São Paulo e a presença do Quércia foi muito decisiva para isso, porque o PMDB acabou em nível nacional apoiando o PT e em nível estadual o PSDB. Aliás o Quércia apoiou a mim e ao Serra. E ao Aloysio (Nunes) também para o Senado. Foi uma pena a doença do Quércia, o partido ficou em uma espécie de transição.

Já tem encontro marcado com a presidente Dilma Rousseff?

Não. Telefonei para a presidente Dilma após as eleições, tivemos uma boa conversa. Estive na posse para os cumprimentos. Mas deixa ela primeiro sentar na cadeira, tomar pé da situação, terminar a montagem do governo. Em algumas semanas pretendo pedir uma audiência para uma reunião de trabalho.

Qual o projeto político do sr. após o período à frente do governo paulista?

Meu projeto é fazer um bom governo, servir a população de São Paulo, avançar mais ainda. Queria destacar também em relação ao PSDB a importância de termos uma boa relação com o governo federal, e não há nenhuma contradição nisso, quem é governo é para governar e não para fazer oposição. Agora, os partidos políticos, numa democracia, quem ganha governa, quem perde fiscaliza. Cabe ao PSDB esse papel importante de oposição inteligente, propositiva. Entendo que pode ser o exemplo de uma oposição diferenciada, analisar área por área do governo. Acho que o PSDB foi bem, embora tenha diminuído o número de parlamentares, mas cresceu o número de governadores.

Vê o PSDB de volta à Presidência?

Está muito longe, mas o partido sempre deve estar preparado para as grandes responsabilidades.

Destacaria um ponto de convergência com Dilma?

Ela terá de São Paulo toda colaboração. São Paulo é parceiro do desenvolvimento brasileiro. Essa é a nova política. O fortalecimento do espírito republicano. Separar bem as disputas eleitorais, que são legítimas,das tarefas de governo.

Governador de São Paulo

Formado em medicina, começou a carreira política aos 19 anos. Em 1972 foi vereador de Pindamonhangaba e, em 1976, prefeito. Foi deputado estadual (1982) e duas vezes federal (1986 e 1994). Em 2001, com a morte de Mário Covas, assumiu o governo de SP e se reelegeu em 2002

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